Dois Pesos, Duas Medidas: O rigor de Márcio Pacheco contra Renato Freitas e o silêncio frente à corrupção confessada na Alep

A Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) se tornou o palco de um contraste evidente sobre como a régua da ética é aplicada entre os seus pares. De um lado, o rigor implacável; do outro, o silêncio absoluto. O protagonista dessa dualidade é o deputado estadual Márcio Pacheco (Republicanos PR), relator no Conselho de Ética da Alep, que pediu a cassação do mandato do deputado Renato Freitas (PT PR).
O rigor contra a briga de rua
O processo contra Freitas foi motivado por uma briga de rua envolvendo o parlamentar e um manobrista no centro de Curitiba, em novembro de 2025. Pacheco foi ágil e vocal na condução do caso, mas a sua postura levanta uma questão inevitável nos bastidores políticos: por que o mesmo deputado se calou diante do escândalo de corrupção envolvendo o presidente da Assembleia, Ademar Traiano (PSD)?
O incidente de novembro de 2025 rendeu a Renato Freitas representações no Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar. Como relator, Pacheco não poupou esforços para levar o caso adiante, pedindo a cassação de Freitas. Houve mobilização, rigor regimental e uma postura inflexível em defesa da imagem do Legislativo paranaense.
A ação incisiva contrasta com a inércia observada meses antes, quando um esquema estrutural de propina veio à tona dentro da mesma Casa de Leis.
O silêncio diante da propina confessada
O Ministério Público do Paraná (MP PR) revelou que o presidente da Alep, Ademar Traiano, e o ex deputado Plauto Miró receberam R$ 100 mil cada um em propina. As investigações detalharam a rota do dinheiro sujo: dois dos três cheques destinados a Traiano foram descontados em uma oficina mecânica em Francisco Beltrão, no sudoeste do estado, reduto eleitoral do presidente da Assembleia.

Diante das provas irrefutáveis, Traiano firmou um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com o MP PR, confessando o crime para evitar um processo judicial.
Apesar da confissão de propina no alto escalão do Legislativo, Márcio Pacheco optou pelo silêncio. Em relação ao caso do presidente da Casa, faltaram atitudes que sobraram no caso do colega de plenário:
- Vídeos de indignação nas redes sociais.
- Discursos inflamados na tribuna.
- Ímpeto para exigir a cassação de Traiano no Conselho de Ética.
Sem polarização, esquerda, direita ou centro, a premissa é simples: se errou, tem que pagar pelos erros. Mas por que Ademar Traiano está lá ainda?
A sombra das urnas e o fator 2026
Para entender a discrepância, é preciso olhar para além do regimento interno da Alep e focar no calendário eleitoral. Tanto Márcio Pacheco quanto Renato Freitas são pré candidatos à Câmara Federal. E os números da última eleição ajudam a explicar o cenário:
| Candidato | Votos para Deputado Estadual em 2022 |
| Renato Freitas | 57.880 votos |
| Márcio Pacheco | 36.423 votos |
Freitas foi eleito com uma votação expressiva, superando Pacheco em mais de 21 mil votos, mesmo após ter enfrentado um processo de cassação repleto de judicializações quando ainda era vereador em Curitiba.
Nos corredores da política paranaense, a leitura é pragmática: ao mirar as eleições para deputado federal, Pacheco enxerga em Freitas um adversário com forte capilaridade de votos. A celeridade em pedir a cassação do colega por uma briga de rua, enquanto ignora a corrupção confessada pelo presidente da Assembleia, alimenta a tese de que o Conselho de Ética está sendo utilizado como uma ferramenta de eliminação eleitoral. O receio de ser “engolido” nas urnas parece ditar o compasso da indignação.
A ética pública exige coerência. Quando um representante do povo aplica a lei com mão de ferro para um adversário eleitoral e faz vista grossa para esquemas de corrupção comprovados no gabinete ao lado, a mensagem enviada ao eleitor é clara: a indignação não é com a quebra de decoro, mas com a concorrência nas urnas.
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Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
