Propaganda de Saúde ou Exposição Pública?

Propaganda de Saúde ou Exposição Pública?
Publicado em 07/11/2025 às 11:51

Campanha da Prefeitura de Cascavel sobre a PrEP reforça estigmas e coloca a comunidade LGBTQIA+ em situação vexatória.


Nos últimos dias, um outdoor da Prefeitura de Cascavel chamou atenção ao estampar a frase “Você conhece a PrEP? Medicação que previne o HIV”, acompanhada da imagem de dois homens abraçados, com cores e símbolos que remetem à bandeira LGBTQIA+. A mensagem, embora aparente ser uma ação de saúde pública, evidencia uma grave falha de comunicação e sensibilidade social ao tratar de um tema que exige cuidado, respeito e responsabilidade institucional.


A PrEP (profilaxia pré-exposição) é um importante avanço no combate ao HIV, oferecido gratuitamente pelo SUS. Porém, ao associar a prevenção exclusivamente a corpos LGBTQIA+, a campanha reforça um estigma histórico: o de que o HIV seria um “problema de gays e travestis”. Esse tipo de representação estigmatiza e marginaliza uma comunidade que há décadas luta contra o preconceito e pela visibilidade digna nas políticas públicas.


O uso de imagens e símbolos LGBTQIA+ nesse contexto, sem uma abordagem educativa mais ampla, pode colocar as pessoas retratadas e toda a comunidade em situação vexatória e de vulnerabilidade social, violando o princípio da dignidade da pessoa humana, previsto no artigo 1º, inciso III, da Constituição Federal. Além disso, fere os dispositivos da Lei nº 7.716/1989, que define crimes resultantes de preconceito e discriminação — abrangendo, por decisão do Supremo Tribunal Federal, também a orientação sexual e identidade de gênero.


É importante lembrar que a PrEP é destinada a todas as pessoas sexualmente ativas em situação de risco, incluindo casais heterossexuais, profissionais do sexo e usuários de drogas injetáveis. Ao restringir sua divulgação visual a um grupo social específico, a prefeitura acaba por reforçar preconceitos e estereótipos, alimentando o imaginário social que associa o HIV exclusivamente à comunidade LGBTQIA+.


Campanhas públicas devem ser instrumentos de educação, informação e acolhimento, não de exposição. A comunicação em saúde precisa dialogar com toda a sociedade, de forma inclusiva e empática. Quando o poder público falha nesse cuidado, cabe aos coletivos, movimentos sociais e conselhos de direitos humanos denunciar e exigir a reformulação dessas campanhas, garantindo que políticas de prevenção e saúde sejam construídas com respeito, representatividade e escuta ativa das populações envolvidas.
Combater o HIV é uma responsabilidade coletiva — e isso só será possível quando o enfrentamento ao preconceito também for prioridade.

Por Eduarda Jankauskas Gois
Bióloga, professora e presidenta do Movimento de Pessoas Trans, Travestis e Não Binárias de Cascavel (PR).

Equipe

Editor Chefe: Evandro Nicolao

Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak

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