Mais Aperto, Menos Respeito: A Lei que Ninguém Pediu e Só Atrapalha.

Dizem que para entender a saúde de uma cidade, basta olhar para as prioridades de seus legisladores. Se essa máxima for verdadeira, Cascavel acaba de entrar em um diagnóstico delirante. A cidade, que outrora ostentava o orgulho de estar no topo, despencou de um honroso 2º lugar para a amarga 75ª posição em indicadores recentes. As ruas estão às escuras, o asfalto lunar desafia a suspensão dos carros e a saúde pública pede socorro. Mas respirem aliviados, cidadãos, pois a Câmara de Vereadores tem uma solução urgente para a metrópole: o Projeto de Lei 185/2025.
Não, não é um plano diretor para iluminar os bairros breus ou tapar as crateras que engolem motociclistas. A grande emergência, trazida à luz nesta semana pelo vereador Dr. Lauri, é autorizar o transporte de pets de até 12 kg no transporte coletivo.
Quem precisa de transporte público em Cascavel conhece a realidade nua e crua: os terminais são um teste diário de sobrevivência e os ônibus operam na lógica da física quântica, onde dois corpos ocupam o mesmo espaço esmagados nas portas. O sistema mal dá conta de transportar a população trabalhadora, que viaja compactada como sardinha em lata. Agora, graças à brilhante iniciativa legislativa, essa lata de sardinha ganhará um novo ingrediente: animais de médio porte.
Imagine a cena bucólica às 18h no Terminal Oeste: o trabalhador exausto, tentando se equilibrar num pé só, enquanto divide o oxigênio viciado com um Golden Retriever “compacto” de 12 quilos. Sim, porque 12 quilos não é exatamente um hamster de bolso; é o peso de um botijão de gás pequeno, mas com dentes, garras e, ocasionalmente, pulgas.
A Balança Imaginária e o Caos Anunciado
A proposta é tão desconectada da realidade operacional que chega a ser cômica. Fica a pergunta que vale um milhão de reais: quem irá fiscalizar?
Será que os motoristas, que já acumulam as funções de condutor, cobrador e psicólogo de trânsito, agora terão que andar com uma balança de precisão no bolso? Imagine o diálogo: “Desculpe, dona Maria, mas o Rex engordou no fim de semana, a balança acusou 12 quilos e 100 gramas. O cachorro desce.”

E se o “pet de pequeno porte” decidir que não gosta do passageiro ao lado? Quem se responsabiliza pelo incidente? A prefeitura? A empresa de ônibus? Ou o vereador Dr. Lauri vai pessoalmente fazer o curativo? Em um ambiente onde pessoas já se machucam pelo simples aperto das portas, inserir animais assustados é a receita perfeita para o desastre.
O Tribunal das Redes: A Voz da Rejeição
E não pensem que essa indignação é isolada. Basta abrir qualquer rede social ou portal de notícias da cidade para ver que o “termômetro popular” explodiu. A população é, em sua esmagadora maioria, totalmente contra essa lei.
Nas caixas de comentários, a revolta é palpável. O cascavelense, que vive a realidade do transporte público na pele, não comprou a ideia “fofinha” do projeto. Entre emojis de palhaço e textos de desabafo, o recado das ruas digitais é uníssono: o povo não quer dividir o banco (que já não tem) com cachorros; o povo quer ônibus que passe na hora, que não quebre e que tenha ar-condicionado funcionando. Tentar empurrar essa lei goela abaixo é ignorar o grito de quem paga a passagem.





O Legado de Soni Lorenzi
A criatividade legislativa de Cascavel tem antecedentes históricos. É impossível ler sobre essa lei e não sentir o perfume nostálgico de Soni Lorenzi. Para quem tem memória curta, Soni foi o visionário que, anos atrás, brindou a cidade com a inesquecível lei que obrigava cavalos a usarem fraldas/coletores de esterco.
Talvez Soni devesse ser convocado como consultor especial para o PL 185/2025. Quem sabe ele não possa emendar o projeto e exigir que, além de pesar 12 quilos, os cães e gatos usem as famosas fraldas equinas adaptadas? Seria o encontro perfeito entre o passado glorioso e o presente caótico da câmara municipal. Se Soni ajudar, talvez a próxima lei determine que os buracos de rua sejam preenchidos com ração, resolvendo dois problemas com uma cajadada só.
Prioridades no Escuro
Enquanto discutimos se o Poodle pode ir sentado ou no colo, a cidade real continua lá fora, no escuro. A queda para a 75ª posição não é um acaso; é fruto de uma gestão que parece ter perdido o foco do essencial.
Falta luz, falta infraestrutura, falta conforto humano no transporte. Mas não se preocupem. Se você tropeçar na escuridão de uma rua sem lâmpada e quebrar a perna, pelo menos poderá levar seu cachorro de 12 quilos para te acompanhar na ambulância… se ela passar, é claro.
Cascavel está, de fato, às mil maravilhas. Só falta avisar a população.
Equipe
Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
