Do abuso abafado à criança trocada: O ciclo de negligência da gestão Renato Silva

Se a Lei de Murphy dita que nada está tão ruim que não possa piorar, a educação municipal de Cascavel parece empenhada em provar essa teoria na prática. Na última sexta feira, dia 6 de fevereiro, a Escola Arthur Carlos Sartori, no bairro Santa Felicidade, foi palco de um episódio que transcende o simples erro administrativo e entra na esfera do risco de vida. Uma menina de apenas 4 anos, a pequena Aurora, foi entregue equivocadamente a uma família desconhecida ao final do segundo dia de aula, expondo a fragilidade dos protocolos de segurança que deveriam proteger o bem mais precioso das famílias cascavelenses.
O pesadelo da mãe, Tamara Priscila Gonçalves da Luz, começou com uma chamada trivial. A escola informou que a filha havia colocado massinha de modelar no ouvido e solicitou sua presença. Ao chegar, no entanto, a realidade foi muito mais aterrorizante do que uma travessura infantil. Tamara descobriu que sua filha não estava lá. A criança havia sido liberada com outra família, que possuía uma neta homônima em outra turma. A escola, em um ato de amadorismo injustificável, não conferiu a documentação, não solicitou a carteirinha de identificação obrigatória e simplesmente abriu o portão, entregando uma criança de 4 anos a terceiros sem qualquer verificação de parentesco.
A justificativa apresentada pela instituição beira o escárnio. Alegaram que o avô que buscou a criança possuía baixa visão. Tal argumento, longe de eximir a escola, apenas agrava a responsabilidade dos servidores. É justamente para proteger crianças de equívocos, de idosos com limitações ou de má fé que existem protocolos rígidos de segurança. Se a avó da outra família não tivesse a lucidez de perceber o erro ao chegar em casa, o desfecho poderia ser trágico. E se não fosse um avô confuso? E se fosse um predador sexual se aproveitando da falha na triagem? E se essa criança tivesse sido levada para outra cidade? A sorte foi o único fator de segurança de Aurora naquele dia, pois a competência do sistema falhou miseravelmente.

A mãe relata que não teve acesso às câmeras, não sabe quanto tempo a filha ficou desaparecida e questiona, com toda a razão, o “e se”. A escola pede desculpas, mas desculpas não trazem crianças de volta em casos de sequestro ou desaparecimento facilitado pela negligência estatal. A intenção de retirar a filha da escola é a única reação lógica diante de tamanha quebra de confiança.
Contudo, o buraco é mais embaixo. Esse episódio não é um raio em céu azul, mas sintoma de uma gestão que parece ter normalizado o erro e a impunidade. A descrença da população cascavelense nas instituições municipais é fundamentada em fatos. A cidade ainda digere o gosto amargo de uma CPI que prometeu muito e entregou nada, blindando aliados e ignorando problemas estruturais. Mais grave ainda é a sombra que paira sobre o atual prefeito, Renato Silva, acusado de inércia diante de processos administrativos disciplinares (PAD) cruciais.

Há relatos contundentes de que o executivo teria “sentado em cima” de um PAD referente a um caso anterior de abuso infantil, impedindo que a justiça administrativa fosse feita. Se diante da monstruosidade de um abuso a resposta da prefeitura e da secretaria de educação foi o silêncio e a gaveta, que garantia a sociedade tem de que a entrega errada de uma criança resultará em alguma punição real? A abertura de um novo processo administrativo para investigar o caso da pequena Aurora corre o risco de ser apenas mais uma encenação burocrática, uma cortina de fumaça para acalmar os ânimos enquanto se aguarda o esquecimento público.
Cascavel não pode aceitar que a segurança de suas crianças dependa da sorte ou da boa visão de terceiros. Enquanto a prefeitura tratar PADs como ferramenta política e a segurança escolar como detalhe opcional, todas as crianças da rede municipal estarão vulneráveis. A massinha no ouvido foi o menor dos problemas de Aurora; o verdadeiro perigo é estudar em um sistema onde o portão se abre para qualquer um e a responsabilidade se fecha nos gabinetes do poder.
Equipe
Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
