Matéria do Jornal O Paraná revela: Paranhos assumiu controle de empresas milionárias antes de deixar a prefeitura

Matéria do Jornal O Paraná revela: Paranhos assumiu controle de empresas milionárias antes de deixar a prefeitura
Publicado em 18/02/2026 às 17:47

Cascavel e Paraná  Leonaldo Paranhos transferiu para seu nome, no último dia como prefeito de Cascavel, empresas que movimentaram mais de R$ 54 milhões, segundo aponta denúncia e documentos públicos analisados pela reportagem, após autorizar aportes milionários concentrados nas semanas finais de sua gestão, conforme registrado nos contratos sociais (que são públicos), registros da Junta Comercial, balanços empresariais e alterações societárias analisados pela reportagem.

Documentos mostram que, em 30 de dezembro de 2024, ainda no exercício do mandato, Paranhos ingressou formalmente em empresas que haviam expandido patrimônio e volume de operações ao longo dos oito anos em que esteve à frente da Prefeitura, de acordo com os registros consultados. As movimentações envolvem, principalmente, as construtoras e incorporadoras Meu Viver, Vipar, FV Incorporadora e a Oeste Holding.

As informações constam da denúncia apresentada à DECCOR (Delegacia de Combate à Corrupção) pelo ex-deputado federal Evandro Roman, à qual a reportagem teve acesso. O documento foi elaborado a partir do cruzamento de dados abertos, registros comerciais, informações patrimoniais, documentos fiscais e balanços empresariais, que indicariam, segundo a denúncia, uma suposta concentração atípica de integralizações de capital e reorganização societária no período imediatamente anterior ao fim do mandato.

No fim da gestão

Entre novembro e dezembro de 2024, as empresas do grupo comandado por Paranhos realizaram uma série de aportes milionários em intervalo inferior a 45 dias, conforme os registros analisados. A Vipar recebeu integralizações que somaram R$ 4,42 milhões. Na sequência, a FV Incorporadora teve seu capital ampliado em mais R$ 1,815 milhão.

Parte desses recursos foi registrada em nome de Francielle Abcosti, funcionária de Vivian Paranhos, filha do ex-prefeito. Documentos indicam que Francielle realizou aportes superiores a R$ 1,29 milhão, segundo a denúncia, apesar de apresentar, até pouco tempo antes, histórico de baixa capacidade financeira e registros de negativação.

Para especialistas ouvidos pela reportagem, esse tipo de movimentação poderia sugerir, em tese, a utilização de sócios interpostos para viabilizar a reorganização patrimonial do grupo antes da entrada direta de Leonaldo Paranhos nas empresas, o que ainda é objeto de apuração.

Núcleo familiar

A análise dos contratos sociais revela que, antes da formalização da entrada de Leonaldo Paranhos, as empresas eram controladas majoritariamente por familiares e pessoas próximas ao ex-prefeito, conforme os documentos públicos consultados.

Além do próprio Paranhos, figuram como sócios e participantes Vivian Paranhos, filha de Leonaldo, que aparece como elo entre o núcleo familiar e a estrutura empresarial; Pedro Paranhos, filho do ex-prefeito, com participação societária em empresas do grupo; e Francielle Abcosti, funcionária de Vivian, responsável por aportes expressivos.

Esse arranjo permaneceu ativo durante os anos de mandato, período em que as empresas ampliaram significativamente seu volume de negócios, sobretudo no setor imobiliário e da construção civil em Cascavel, segundo dados societários.

Somente após o encerramento da gestão — e, formalmente, no último dia no cargo — Paranhos passou a figurar diretamente como sócio e administrador nas companhias.

Vale ressaltar que todas as informações publicadas sobre as denúncias envolvendo o ex-prefeito Leonaldo Paranhos têm como base documentos, denúncia formal e investigação em andamento, conduzida pela DECCOR, a partir de material protocolado pelo ex-deputado federal Evandro Roman.

Todos os citados na matéria foram procurados pela reportagem por meio de ligações telefônicas e mensagens de texto, porém não atenderam nem retornaram as mensagens.

Empresa de R$ 20 mil movimentou R$ 54 milhões

A Meu Viver Construtora e Incorporadora é apontada, segundo a denúncia, como o exemplo mais emblemático da disparidade entre capital social declarado e volume real de operações. Criada em 2018 com capital inicial de apenas R$ 20 mil, a empresa realizou transações imobiliárias que somam R$ 54.341.800,00.

O valor é 2.717 vezes superior ao capital registrado, o que, na avaliação de especialistas, pode indicar hipóteses como subcapitalização, ocultação patrimonial ou uso da empresa como instrumento de movimentação financeira, situações denunciadas e que estão sendo investigadas pelas autoridades competentes.

Mesmo antes da entrada direta de Paranhos, a Meu Viver era controlada por integrantes do núcleo familiar, incluindo Vivian e Pedro, além de sócios ligados ao círculo próximo, conforme contratos sociais.

Centralização e patrimônio

Cinco empresas do grupo operam no mesmo endereço, em salas consecutivas na Rua Antônio Alves Massaneiro, em Cascavel. Apesar de possuírem CNPJs distintos, compartilham estrutura administrativa, contábil e operacional.

Essa centralização, conforme interpretação de especialistas, reforça a suspeita de atuação como conglomerado único, com divisão apenas formal das pessoas jurídicas. Registros da Junta Comercial mostram que as mesmas contabilidades, advogados e gestores atuam simultaneamente para diferentes empresas do grupo.

“Reorganização”

O ingresso simultâneo de Leonaldo Paranhos nas empresas em 30 de dezembro de 2024 é considerado atípico por especialistas em direito empresarial e administração pública. A formalização ocorreu após anos de crescimento sob controle indireto, integralizações concentradas de capital, reorganizações societárias sucessivas e retirada gradual de sócios intermediários que integravam a estrutura empresarial do grupo, segundo a denúncia.

A investigação em curso na DECCOR busca esclarecer se essa movimentação pode caracterizar, em tese, reorganização societária concentrada no fim do mandato, com a transferência formal do controle para o ex-prefeito após o término do mandato, hipótese ainda sob apuração.

“ParanhosLeaks”: investigação prorrogada

As movimentações agora detalhadas fazem parte do conjunto de informações reveladas inicialmente na série ParanhosLeaks, publicada há pouco mais de um ano pelo ex-deputado federal Evandro Roman. À época, os dados deram origem ao inquérito que apura a atuação do ex-prefeito na relação entre poder público e empresas familiares.

Com a consolidação das informações financeiras, societárias e patrimoniais, o material foi sistematizado em relatório técnico e encaminhado à Delegacia de Combate à Corrupção, responsável por apurar crimes contra a administração pública, licitações e lavagem de dinheiro.

Na esteira das novas denúncias, o MPPR (Ministério Público do Paraná) acatou pedido de prorrogação do prazo para aprofundar as investigações sobre Leonaldo Paranhos. A decisão permite a continuidade da análise dos documentos, das movimentações financeiras e da estrutura empresarial ligada ao ex-prefeito.

O inquérito segue sob sigilo.

Por Guilherme Mendes e Vanessa Nilsson, especial para O Paraná

Equipe

Editor Chefe: Evandro Nicolao

Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak

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