Na internet ou nas ruas: Por que homofobia, transfobia, racismo e xenofobia dão cadeia

Quando assistimos aos noticiários internacionais e vemos o atacante Vinicius Junior enfrentando estádios lotados de ódio na Espanha, a indignação é imediata e coletiva. É fácil apontar o dedo para a Europa e classificar o racismo como um problema distante, de uma sociedade que não nos pertence. No entanto, a realidade é que a distância entre as arquibancadas de Valência e as ruas de Cascavel é muito menor do que imaginamos. O preconceito não precisa de passaporte para viajar; ele vive aqui, respira aqui e, muitas vezes, ocupa cargos de poder, digita em nossos grupos de WhatsApp e frequenta nosso comércio, camuflado de “piada” ou “opinião”. A recente escalada de casos em nossa região , que vão da transfobia explícita envolvendo figuras públicas à xenofobia naturalizada contra nossos vizinhos paraguaios — exige que o espelho seja virado para nós mesmos.

O racismo que atinge Vini Jr. é o mesmo combustível que alimenta a transfobia local. Recentemente, a cidade de Cascavel presenciou um episódio que escancara essa ferida: as denúncias envolvendo o secretário Beto Guilherme. O caso, ocorrido na intimidade covarde de um grupo de WhatsApp, não é apenas uma “fala infeliz”, é a materialização de um crime. Quando um agente público, que deveria zelar pela isonomia e pelo respeito a todos os cidadãos, utiliza de sua posição para proferir ofensas transfóbicas, ele ataca não apenas a dignidade de uma pessoa, mas a própria estrutura do Estado Democrático de Direito. O Supremo Tribunal Federal (STF) já equiparou a homotransfobia ao crime de racismo, tornando-o inafiançável e imprescritível. Não se trata de “mimimi” ou patrulha ideológica; estamos falando de Código Penal, de condutas que podem levar à reclusão de dois a cinco anos. Aquele que agride uma mulher trans em um grupo de mensagens comete um delito tão grave quanto aquele que atira bananas em um jogador de futebol.


O cenário se agrava quando olhamos para os dados. Relatórios recentes de segurança pública indicam que, embora alguns índices de violência física tenham oscilado, os crimes de ódio e cibernéticos explodiram, com aumentos expressivos em denúncias de intolerância online no último ano. Em Cascavel e no Paraná, a homofobia muitas vezes caminha silenciosa, sufocada pelo medo da denúncia, mas presente na exclusão do mercado de trabalho e na violência psicológica. A sensação de impunidade, especialmente quando o agressor detém poder político ou econômico, é o que perpetua o ciclo. Mas a legislação mudou. A Lei 14.532/2023 endureceu as penas para injúria racial e crimes resultantes de preconceito, deixando claro que a internet não é terra sem lei e que o print de uma conversa é, sim, prova material de um crime que leva à cadeia.

Nessa geografia do ódio, há ainda uma vítima constante e historicamente ridicularizada em nossa região: o povo paraguaio. A xenofobia contra o Paraguai é tão estrutural que se disfarça de cultura. A frase repetida à exaustão de que “tudo que vem de lá é falsificado” não é uma constatação de mercado, é uma agressão à identidade nacional de um povo irmão. Tratar o paraguaio e sua produção com desdém sistemático enquadra-se no crime de preconceito de procedência nacional. Ignoramos que o Paraguai é um parceiro comercial vital e uma nação soberana, reduzindo sua cultura a estigmas criminosos. Quem propaga que “paraguaio é falso” está, aos olhos da nova legislação, cometendo o mesmo tipo de violação que um racista ou homofóbico.

Estamos em um momento de ruptura. A sociedade cascavelense precisa decidir se continuará tolerando o intolerável sob a covarde desculpa do “sempre foi assim”. Os casos estão na mesa: do ídolo mundial Vini Jr. ao secretário municipal, do ataque sistemático à comunidade LGBTQIA+ ao desprezo pelo vizinho de fronteira. Mas a resistência já ganha força nos tribunais e o recuo não é mais uma opção.



Duda Jankauskas, que provou sua representatividade nas urnas como candidata a vereadora com mais de 1.200 votos, é a prova viva dessa mudança de postura.
Ela acaba de protocolar mais um processo contra um cidadão por crime de transfobia e o recado é direto: a ofensiva judicial vai continuar. Com vitórias já garantidas na Justiça contra seus agressores, Duda mostra que o preconceito agora tem preço e CPF. A lei é dura e as ferramentas de investigação digital são cirúrgicas. Para os criminosos de plantão, resta o aviso claro de que o tempo da impunidade acabou; para a sociedade, fica o dever moral de não ser cúmplice pelo silêncio. Jornalismo é, acima de tudo, a coragem de dar nome aos bois e tipificar os crimes, doa a quem doer.
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Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
