Desprezo com o Contribuinte: Prefeito Renato Silva mantém aluguel milionário no prédio da própria filha

CASCAVEL, PR — A cidade de Cascavel possui um mercado imobiliário vasto. São centenas de salas, prédios e barracões comerciais com placas de “aluga-se” espalhados por todos os bairros. No entanto, em meio a um mar de opções pertencentes a cidadãos comuns, a Prefeitura Municipal fez uma escolha, no mínimo, revoltante: o Executivo municipal escolheu alugar um imóvel que pertence à família do atual prefeito, Renato Silva.
O contrato de número 254/2020 foi firmado com a empresa “DAYANE CRISTINA DA SILVA – ME” (CNPJ 04.141.871/0001-86, nome fantasia M&G Odontologia), filha de Renato Silva, que na época da assinatura já era vice-prefeito. A pergunta que ecoa e exige resposta é direta: com centenas de imóveis vazios e adequados para locação na cidade, por que a Prefeitura foi locar justamente um prédio que beneficia diretamente a família do chefe do Executivo?

A Apuração: 6 anos de locação e a Dúvida sobre os Dados Recentes
A equipe de reportagem do site Notícias Cascavel foi a fundo para entender a extensão desse negócio. Em contato telefônico com o Centro de Atendimento Especializado (CAE), órgão municipal que funciona no imóvel locado (localizado na Rua Pernambuco, 188 – Centro), fomos informados de que a estrutura está operando neste exato local há 06 anos.
A confirmação de que o serviço continua lá, em pleno 2026, torna o cenário ainda mais nebuloso quando tentamos cruzar essa informação com os dados oficiais. O Notícias Cascavel realizou buscas no Portal da Transparência do Município para rastrear esses repasses recentes, mas esbarrou em um cenário de incertezas.
Afinal, onde estão os registros públicos e aditivos detalhados deste contrato após o ano de 2022? Por que a publicidade desses documentos parece não estar clara ou facilmente acessível ao cidadão que tenta fiscalizar? Essa lacuna levanta uma grave suspeita: estaria havendo uma dificuldade proposital no acesso aos valores reais pagos à filha do prefeito nos últimos anos? Enquanto as dúvidas pairam no ar, o serviço continua operando normalmente no prédio da família.
A Matemática do Privilégio: O que se sabe até 2022
Enquanto o cidadão comum de Cascavel sofre com a carga tributária, a família do prefeito vem recebendo milhares de reais oriundos dos cofres públicos.
Uma análise da imagem extraída do Portal da Transparência, que exibe com clareza apenas o histórico entre 2020 e 2022, já revela o peso do negócio. Embora o portal aponte um “Valor Atualizado” ativo de R$ 530.895,12, a soma bruta de todas as movimentações financeiras expostas na tela revela cifras milionárias:
- Contrato Base (2020): R$ 504.000,00
- Apostila 1/2021: R$ 462.000,00
- Apostila 2/2021: R$ 273.000,00
- Objeto/Valor 3/2021: R$ 26.895,12
- Apostila 4/2022: R$ 282.548,87
- Apostila 5/2022: R$ 116.206,30
- Apostila 6/2022: R$ 46.482,52
- Apostila 7/2022: R$ 23.241,26
- Soma total exposta (até 2022): R$ 1.734.374,07
(Nota: Na contabilidade pública, aditivos e apostilas podem representar remanejamentos ou provisões que se sobrepõem, mas o volume de dinheiro circulando em um contrato com a filha do prefeito é um escárnio com a transparência que se espera da gestão).
Se apenas nos primeiros anos os aditivos e empenhos atrelados a este contrato já somavam mais de R$ 1,7 milhão, fica a pergunta que não quer calar: qual é o valor real e total que a filha do prefeito já recebeu até este ano de 2026?
A Lei é para Todos?
A Constituição Federal de 1988 não deixa margem para dúvidas em seu Artigo 37: a administração pública é obrigada a obedecer aos princípios da impessoalidade, da publicidade e da moralidade.
O aluguel de um imóvel pertencente a um parente de primeiro grau de quem detém a caneta do município rasga a legislação. A Nova Lei de Licitações (Lei 14.133/2021) e o próprio Tribunal de Contas vedam que o poder público faça negócios com empresas de parentes de gestores. O objetivo dessa regra é cristalino: impedir que os impostos pagos pelo povo sejam usados para engordar o patrimônio da família de quem está no poder.
Um Conflito de Interesses Injustificável
Não há justificativa técnica que sustente essa exclusividade. É impossível que, em uma cidade do porte de Cascavel, não houvesse nenhum outro imóvel, de proprietários sem ligações com a Prefeitura, capaz de abrigar a estrutura pública.
Manter esse contrato e deixar margem para dúvidas sobre a transparência dos valores recentes é um desrespeito ao contribuinte. Fica agora o apelo urgente para que o Ministério Público do Paraná (MPPR) e a Câmara de Vereadores exijam os documentos completos e investiguem essa relação com o dinheiro do cascavelense. O interesse público não pode, jamais, ser um anexo do orçamento familiar.
Equipe
Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
