O Preço de Ser Mulher: Do Assédio no Transporte de Cascavel ao Feminicídio, Exigimos Mais que Campanhas. Exigimos Segurança.

O simples ato de voltar para casa após um longo dia de trabalho não deveria ser um teste de sobrevivência. No entanto, para milhares de mulheres em Cascavel, no Paraná e em todo o Brasil, caminhar por ruas mal iluminadas ou embarcar em um ônibus lotado significa estar em estado de alerta constante. A vulnerabilidade feminina na sociedade é uma ferida aberta que sangra todos os dias em forma de assédio, violência e, no extremo mais trágico, o feminicídio.
A impunidade, o silêncio institucional e a falta de políticas públicas efetivas tornam o ambiente ainda mais hostil. Até quando o medo será o passageiro diário na vida das mulheres?
O Cenário de Sangue: Dados que Envergonham o País
A violência contra a mulher não é apenas uma sensação; ela é endossada por estatísticas alarmantes que mostram uma escalada na brutalidade.

- No Brasil: O Mapa da Segurança Pública mais recente aponta que cerca de quatro mulheres são vítimas de feminicídio todos os dias no país. As medidas protetivas disparam, chegando a uma média de 109 concessões por hora.
- No Paraná: Apenas no primeiro semestre de 2025, o estado contabilizou 179 casos de feminicídio. Pior ainda, um levantamento recente de 2026 aponta que o sub-registro de feminicídios no Paraná pode ultrapassar os 100%. Muitas mortes violentas de mulheres dentro de suas próprias casas sequer entram para as estatísticas oficiais como crime de gênero.
- Em Cascavel: A cidade não foge à triste regra estadual. Os boletins de ocorrência por violência doméstica se acumulam nas delegacias, refletindo uma realidade onde o agressor, muitas vezes, divide o mesmo teto que a vítima.
O Transporte Coletivo como Cenário de Abusos
O assédio não escolhe hora, mas tem um local preferido: as aglomerações. O transporte público de Cascavel tem sido palco frequente de importunação sexual. Um caso emblemático e recente ocorreu no Terminal Leste, em janeiro de 2026, quando um homem aproveitou o tumulto do embarque para esfregar suas partes íntimas em uma passageira e, logo após, fugiu.

Este não é um caso isolado. Mulheres relatam diariamente a tensão de tentar se proteger de “encoxadas”, olhares invasivos e toques indesejados nos horários de pico. A rua escura ao descer no ponto de ônibus é apenas a continuação de um trajeto marcado pela insegurança.
A Solução Ignorada: Se o transporte público, em horários de fluxo intenso, é um ambiente propício para predadores sexuais, por que Cascavel ainda não implementou ônibus exclusivos para mulheres? A criação de frotas ou vagões exclusivos em horários de pico é uma medida de proteção emergencial já testada em outras metrópoles. Garantir que as mulheres possam ir e vir do trabalho sem o risco de serem violadas fisicamente e psicologicamente é o mínimo que se espera de uma gestão urbana que se diz atenta às demandas sociais

O Papel do Poder Público e a Sombra da Impunidade
A Prefeitura de Cascavel e a Secretaria de Políticas para as Mulheres mantêm campanhas de conscientização e contam com o apoio da Patrulha Maria da Penha (disponível pelo telefone 153). São ações importantes e necessárias. No entanto, o discurso de proteção entra em colapso quando olhamos para dentro da própria máquina pública.
Como o município pode exigir respeito à mulher na sociedade quando falha em proteger suas próprias servidoras? A população ainda guarda na memória e na garganta os casos de assédio ocorridos dentro da Secretaria de Esportes de Cascavel. Denúncias graves envolvendo abusos contra estagiários e subordinadas vieram à tona, mas a percepção pública é de que o sistema é lento e, muitas vezes, conivente. Quando casos de assédio acontecem nos corredores do poder público e a resposta soa como impunidade ou vista grossa, a mensagem enviada aos agressores nas ruas e nos ônibus é clara: a violência contra a mulher é tolerada.
Chega de Sobreviver, é Preciso Viver
A insegurança que amedronta a mulher em Cascavel e no Brasil não será resolvida apenas com cartilhas ou posts em redes sociais. Proteger a mulher exige ações enérgicas e estruturais:
- Iluminação Pública de Qualidade: Ruas escuras são aliadas de criminosos. O investimento em infraestrutura básica é, também, segurança pública.
- Transporte Exclusivo: Ônibus apenas para mulheres nos horários de maior fluxo para erradicar a importunação sexual no trajeto diário.
- Tolerância Zero Institucional: Punição exemplar e imediata para assediadores em qualquer esfera, especialmente dentro das secretarias municipais. Quem deveria dar o exemplo não pode ser o algoz.
- Ampliação da Rede de Acolhimento: Maior rigor na tipificação dos feminicídios para evitar o sub-registro e garantir que as medidas protetivas sejam fiscalizadas com efetividade.
Nenhuma mulher deveria ter que planejar sua rota calculando os riscos de ser assediada ou morta. Não queremos ser corajosas para pegar um ônibus ou andar na rua; queremos, simplesmente, ser livres e estar seguras. É dever do Estado e de Cascavel garantir que o direito de ir e vir não custe a dignidade, ou a vida de nenhuma mulher.

Equipe
Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
