Matéria Jornal O Paraná: Lixo e Transporte Público: R$ 3 milhões em estudos e zero solução

Cascavel e Paraná – Após oito anos da gestão Leonaldo Paranhos (PSD) e já na metade do segundo ano do governo Renato Silva, Cascavel ainda tenta, com admirável persistência burocrática, transformar planejamentos milionários em resultados concretos em dois dos seus principais serviços públicos: a coleta de lixo e o transporte coletivo. O edital dos serviços de manejo de resíduos e limpeza urbana finalmente foi relançado em 2026 – Contrato do Lixo, enquanto o novo contrato do transporte coletivo segue travado no TCE-PR (Tribunal de Contas do Estado), em mais um capítulo de uma novela administrativa que parece não ter previsão de encerramento.
No centro desse impasse estão estudos técnicos que consumiram recursos públicos expressivos e que, na prática, tiveram aproveitamento bastante limitado, levantando questionamentos inevitáveis sobre a eficiência dos investimentos realizados para estruturar licitações que, em grande parte, simplesmente não saíram do papel.
Os números vieram à tona após a apresentação, pelo vereador Edson Souza (MDB), de dois requerimentos exigindo esclarecimentos sobre os contratos firmados com a FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) para o planejamento das licitações do lixo e do transporte coletivo. As respostas chegaram e, o que elas revelam, é no mínimo constrangedor — ou, para os mais generosos, pedagogicamente ilustrativo sobre como o dinheiro público pode percorrer longos caminhos sem necessariamente chegar ao destino.
“Elaboramos os pedidos de informação considerando a importância da coleta de lixo e do transporte público, além do volume de recursos investido e sua viabilidade. O planejamento público é essencial, mas precisa gerar resultados concretos. Neste caso, os valores investidos na contratação da FIPE, não parecem ter gerado benefício ao município”, resumiu o vereador.
Quase R$ 3 milhões
Somados, os dois estudos técnicos custaram aos cofres públicos a bagatela de R$ 2.983.000,00. Desse total, R$ 1.223.000,00 foram pagos pela Sema (Secretaria de Meio Ambiente) para o estudo do contrato do lixo, enquanto R$ 1.760.000,00 saíram da Transitar para a modelagem do novo sistema de transporte coletivo.
O detalhe, nada irrelevante, é que, apesar de integralmente pagos, os estudos não produziram, até aqui, o resultado para o qual foram contratados: nenhuma das licitações foi efetivamente concluída. Ambas passaram por suspensão, questionamentos, anulações ou fracassaram por ausência de interessados.
O famoso “Contrato do Lixo”

A Sema contratou a FIPE em 2021, por inexigibilidade de licitação, para elaborar estudos técnicos voltados à concessão dos serviços de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos. O Contrato nº 41/2021 teve vigência de abril de 2021 a abril de 2024, ao custo de R$ 1.223.000,00.
Segundo a resposta encaminhada ao requerimento do vereador, o estudo foi integralmente utilizado no processo de Concessão nº 44/2022 — processo este posteriormente anulado por determinação do Tribunal de Contas do Paraná. Aqui começa a parte mais curiosa da história.
Na própria resposta oficial, a Sema admite que “o aproveitamento do estudo nesta nova licitação será limitado”. A justificativa é técnica, mas traduzida para o contribuinte é uma ironia: o novo processo adota a modalidade de concorrência com vigência de cinco anos, enquanto a FIPE foi contratada para modelar uma concessão de longo prazo.
Em termos mais diretos, o estudo foi feito para uma coisa, mas a Prefeitura agora vai fazer outra. O dinheiro, evidentemente, já cumpriu sua jornada e não fará o caminho de volta. A Secretaria tenta amenizar o desconforto ao afirmar que o material “permanece relevante como subsídio preliminar para futuras modelagens”, já que a administração sinaliza a possibilidade de retomar, em momento oportuno, um modelo de concessão com prazo de 10 ou 20 anos.
Em outras palavras, o estudo não serve plenamente para agora, mas talvez sirva um dia. Um consolo “sem desconto”…
Histórico
Vale lembrar que desde 2021 Cascavel tenta concluir um novo contrato para a coleta de lixo. A licitação chegou a ser publicada para fevereiro de 2023, mas foi suspensa pelo TCE-PR diante de irregularidades apontadas no certame. Em setembro de 2024, o tribunal determinou a anulação da licitação e elencou uma série de correções obrigatórias. A gestão Paranhos acabou em dezembro de 2024 sem a assinatura de um novo contrato definitivo.
A administração Renato Silva herdou o problema e tentou, em 2025, uma contratação emergencial estimada em R$ 71 milhões, iniciativa que também foi barrada pelo Tribunal de Contas. Enquanto isso, a OT Ambiental seguia recebendo entre R$ 5 milhões e R$ 6 milhões por mês por meio de contratos emergenciais — uma solução provisória que, como tantas vezes ocorre na administração pública, acabou adquirindo contornos de permanência.
Equipe
Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
