6 casas, 75 mil exames ou remédios: O que os R$ 604 mil gastos em diárias poderiam fazer por Sulina

6 casas, 75 mil exames ou remédios: O que os R$ 604 mil gastos em diárias poderiam fazer por Sulina
Publicado em 28/06/2026 às 13:50

Sulina é uma cidade de colonização alemã e italiana no Sudoeste do Paraná, conhecida pelas águas termais, pelas cachoeiras do Rio Iguaçu e por um jeito de interior onde, segundo moradores, “todo mundo se conhece”. Tem 3.498 habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2025, e uma receita orçamentária que somou R$ 51,8 milhões em 2024. É, por definição, um município pequeno, de gestão simples.

Não é, porém, o que mostram os números levantados nos portais de transparência da Prefeitura, comandada pelo prefeito Gilberto João Rossi, e da Câmara Municipal de Sulina. Em apenas um ano e meio — de janeiro de 2025 até meados de 2026 — as duas administrações somaram R$ 604.663,70 em diárias e despesas de viagem. O valor corresponde a R$ 115,24 por habitante só nesse item, e a 1,17% de toda a receita anual que o município arrecadou em 2024.

Os números, por administração

Órgão20252026Total
Prefeitura MunicipalR$ 366.523,55R$ 189.599,95R$ 556.123,50
Câmara de VereadoresR$ 22.294,18R$ 26.246,02R$ 48.540,20
TotalR$ 388.817,73R$ 215.845,97R$ 604.663,70

A Prefeitura responde por 92% de tudo o que foi gasto. Mesmo a Câmara, com uma estrutura muito menor de servidores e vereadores, já soma quase R$ 50 mil em 18 meses — valor que, em uma cidade do tamanho de Sulina, normalmente cobriria um ano inteiro de deslocamentos institucionais.

Concentração: 10 nomes somam 75% de tudo

Levantamento feito a partir dos registros de diárias mostra que dez pessoas concentram R$ 454.987,58 — mais de 75% do total gasto pelo município nesse período. No topo da lista, dois nomes da Prefeitura somam, juntos, mais de R$ 300 mil:

#NomeVínculo20252026Total
1Nori MartinsPrefeituraR$ 122.011,51R$ 61.853,37R$ 183.864,88
2Milton SchmidtPrefeituraR$ 97.304,06R$ 36.768,80R$ 134.072,86
3Gilberto João RossiPrefeitoR$ 25.500,00R$ 19.200,00R$ 44.700,00
4Fenicios Tur (Agência de Viagens)Prefeitura/CâmaraR$ 4.725,32R$ 22.604,52R$ 27.329,84
5Clecilde FabianePrefeituraR$ 12.430,00R$ 8.910,00R$ 21.340,00
6Cleiton ChiochetaCâmaraR$ 2.925,00R$ 7.650,00R$ 10.575,00
7Ronan ErnzenPrefeituraR$ 8.640,00R$ 1.620,00R$ 10.260,00
8Marinete A. ChioquettaPrefeituraR$ 6.240,00R$ 2.880,00R$ 9.120,00
9Waltercir ErnzenPrefeituraR$ 6.750,00R$ 1.350,00R$ 8.100,00
10Ariel Junior LoriniCâmaraR$ 2.025,00R$ 3.600,00R$ 5.625,00

Importante: a presença nesta lista não comprova, por si só, irregularidade. Diárias e passagens são instrumentos legais e necessários para qualquer administração pública — o problema identificado nesta reportagem não é a existência das viagens, mas a ausência de documentação pública que permita à população saber, com transparência, o que cada viagem produziu para o município.

Por que esse valor chama atenção

Não existe um teto nacional único para diárias municipais — cada câmara fixa sua própria tabela. A própria tabela vigente na Câmara de Sulina prevê diárias de R$ 225,00 (sem pernoite) a R$ 900,00 (com pernoite, para Brasília e outras capitais). Para que o total batesse R$ 604 mil em 18 meses, seria necessário um volume de viagens muito acima do que se espera de uma estrutura de pouco mais de 3,5 mil habitantes — em média, mais de R$ 33 mil por mês somando Prefeitura e Câmara.

Posto de outra forma: o valor gasto em diárias e passagens equivale a mais de 1.345 diárias de pernoite pagas em apenas 18 meses, para uma cidade que tem menos de 30 servidores efetivos em cargos de chefia, segundo o organograma administrativo do município.

A falha que mais preocupa: cadê o comprovante?

O portal de transparência da Câmara de Sulina tem, sim, uma aba específica para “Diárias”, com a publicação de autorizações numeradas. O problema é o que essas autorizações não mostram: não há, junto a elas, notas fiscais de hospedagem, combustível ou alimentação, nem relatórios de viagem detalhando o que foi tratado, com quem e com qual resultado para o município.

Isso é mais do que um detalhe burocrático. A Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011) e a Lei de Responsabilidade Fiscal exigem que despesas públicas sejam auditáveis pelo cidadão comum — não apenas pelos órgãos de controle. Publicar somente o valor da diária, sem comprovar o gasto efetivo, é cumprir a lei pela metade. Dinheiro público pertence à população, e o mínimo esperado é que cada centavo possa ser rastreado até a nota fiscal que o justifica.

O que R$ 604 mil poderiam ter feito por Sulina

Usando referências oficiais para o Paraná, é possível traduzir o valor gasto em diárias para a vida prática da população:

Se usado em…Referência (PR/2026)Quantidade possível
Cestas básicas (Curitiba, maio/26)R$ 843,13≈ 717 cestas
Moradias populares de 40 m² (estimativa SINAPI-PR)≈ R$ 90.500/unidade≈ 6 casas completas
Exames laboratoriais simples pelo SUS (sangue, urina, fezes)≈ R$ 8/exame≈ 75.583 exames
Exames de imagem básicos (raio-X, ultrassom, mamografia, ECG)≈ R$ 35/exame≈ 17.276 exames
Exames de média/alta complexidade (tomografia, ressonância, endoscopia, colonoscopia)≈ R$ 250/exame≈ 2.418 exames
Medicamentos básicos via Farmácia Popular/CBAF (diabetes, hipertensão, saúde da mulher)≈ R$ 17,99/habitante/ano (contrapartida PR)≈ 33.611 pessoas atendidas por 1 ano

Esse último número merece destaque: 33.611 pessoas é quase 10 vezes toda a população de Sulina. Em outras palavras, o valor gasto em diárias e viagens em 18 meses seria suficiente para custear medicamentos básicos para diabetes, hipertensão e saúde da mulher de toda a cidade — e ainda sobraria para abastecer praticamente outros nove municípios do mesmo tamanho, por um ano inteiro.

O que diz a lei — e o que o cidadão pode fazer

Pela Lei de Acesso à Informação, qualquer morador pode protocolar um pedido formal pedindo a relação completa de diárias, com finalidade, destino, comprovantes de despesa e relatório de viagem de cada beneficiário — tanto na Prefeitura quanto na Câmara. A prestação de contas do prefeito também é analisada anualmente pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), que pode ser provocado por denúncia de qualquer cidadão, assim como o Ministério Público do Paraná (MPPR), por meio de suas promotorias de Sulina ou da regional de Pato Branco.


Nota da reportagem: os valores apresentados nesta matéria foram extraídos dos portais oficiais de transparência da Prefeitura e da Câmara Municipal de Sulina (PR), referentes a diárias e despesas de viagem registradas em 2025 e 2026. Esta reportagem está aberta para publicar a manifestação oficial do município, da Câmara de Vereadores e de todos os nomes citados sobre os valores recebidos e sua destinação. Pedidos de esclarecimento podem ser enviados aos canais de ouvidoria da Prefeitura e da Câmara de Sulina.

Equipe

Editor Chefe: Evandro Nicolao

Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak

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