6 casas, 75 mil exames ou remédios: O que os R$ 604 mil gastos em diárias poderiam fazer por Sulina

Sulina é uma cidade de colonização alemã e italiana no Sudoeste do Paraná, conhecida pelas águas termais, pelas cachoeiras do Rio Iguaçu e por um jeito de interior onde, segundo moradores, “todo mundo se conhece”. Tem 3.498 habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2025, e uma receita orçamentária que somou R$ 51,8 milhões em 2024. É, por definição, um município pequeno, de gestão simples.
Não é, porém, o que mostram os números levantados nos portais de transparência da Prefeitura, comandada pelo prefeito Gilberto João Rossi, e da Câmara Municipal de Sulina. Em apenas um ano e meio — de janeiro de 2025 até meados de 2026 — as duas administrações somaram R$ 604.663,70 em diárias e despesas de viagem. O valor corresponde a R$ 115,24 por habitante só nesse item, e a 1,17% de toda a receita anual que o município arrecadou em 2024.
Os números, por administração
| Órgão | 2025 | 2026 | Total |
|---|---|---|---|
| Prefeitura Municipal | R$ 366.523,55 | R$ 189.599,95 | R$ 556.123,50 |
| Câmara de Vereadores | R$ 22.294,18 | R$ 26.246,02 | R$ 48.540,20 |
| Total | R$ 388.817,73 | R$ 215.845,97 | R$ 604.663,70 |
A Prefeitura responde por 92% de tudo o que foi gasto. Mesmo a Câmara, com uma estrutura muito menor de servidores e vereadores, já soma quase R$ 50 mil em 18 meses — valor que, em uma cidade do tamanho de Sulina, normalmente cobriria um ano inteiro de deslocamentos institucionais.
Concentração: 10 nomes somam 75% de tudo
Levantamento feito a partir dos registros de diárias mostra que dez pessoas concentram R$ 454.987,58 — mais de 75% do total gasto pelo município nesse período. No topo da lista, dois nomes da Prefeitura somam, juntos, mais de R$ 300 mil:
| # | Nome | Vínculo | 2025 | 2026 | Total |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Nori Martins | Prefeitura | R$ 122.011,51 | R$ 61.853,37 | R$ 183.864,88 |
| 2 | Milton Schmidt | Prefeitura | R$ 97.304,06 | R$ 36.768,80 | R$ 134.072,86 |
| 3 | Gilberto João Rossi | Prefeito | R$ 25.500,00 | R$ 19.200,00 | R$ 44.700,00 |
| 4 | Fenicios Tur (Agência de Viagens) | Prefeitura/Câmara | R$ 4.725,32 | R$ 22.604,52 | R$ 27.329,84 |
| 5 | Clecilde Fabiane | Prefeitura | R$ 12.430,00 | R$ 8.910,00 | R$ 21.340,00 |
| 6 | Cleiton Chiocheta | Câmara | R$ 2.925,00 | R$ 7.650,00 | R$ 10.575,00 |
| 7 | Ronan Ernzen | Prefeitura | R$ 8.640,00 | R$ 1.620,00 | R$ 10.260,00 |
| 8 | Marinete A. Chioquetta | Prefeitura | R$ 6.240,00 | R$ 2.880,00 | R$ 9.120,00 |
| 9 | Waltercir Ernzen | Prefeitura | R$ 6.750,00 | R$ 1.350,00 | R$ 8.100,00 |
| 10 | Ariel Junior Lorini | Câmara | R$ 2.025,00 | R$ 3.600,00 | R$ 5.625,00 |
Importante: a presença nesta lista não comprova, por si só, irregularidade. Diárias e passagens são instrumentos legais e necessários para qualquer administração pública — o problema identificado nesta reportagem não é a existência das viagens, mas a ausência de documentação pública que permita à população saber, com transparência, o que cada viagem produziu para o município.
Por que esse valor chama atenção
Não existe um teto nacional único para diárias municipais — cada câmara fixa sua própria tabela. A própria tabela vigente na Câmara de Sulina prevê diárias de R$ 225,00 (sem pernoite) a R$ 900,00 (com pernoite, para Brasília e outras capitais). Para que o total batesse R$ 604 mil em 18 meses, seria necessário um volume de viagens muito acima do que se espera de uma estrutura de pouco mais de 3,5 mil habitantes — em média, mais de R$ 33 mil por mês somando Prefeitura e Câmara.
Posto de outra forma: o valor gasto em diárias e passagens equivale a mais de 1.345 diárias de pernoite pagas em apenas 18 meses, para uma cidade que tem menos de 30 servidores efetivos em cargos de chefia, segundo o organograma administrativo do município.
A falha que mais preocupa: cadê o comprovante?
O portal de transparência da Câmara de Sulina tem, sim, uma aba específica para “Diárias”, com a publicação de autorizações numeradas. O problema é o que essas autorizações não mostram: não há, junto a elas, notas fiscais de hospedagem, combustível ou alimentação, nem relatórios de viagem detalhando o que foi tratado, com quem e com qual resultado para o município.
Isso é mais do que um detalhe burocrático. A Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011) e a Lei de Responsabilidade Fiscal exigem que despesas públicas sejam auditáveis pelo cidadão comum — não apenas pelos órgãos de controle. Publicar somente o valor da diária, sem comprovar o gasto efetivo, é cumprir a lei pela metade. Dinheiro público pertence à população, e o mínimo esperado é que cada centavo possa ser rastreado até a nota fiscal que o justifica.
O que R$ 604 mil poderiam ter feito por Sulina
Usando referências oficiais para o Paraná, é possível traduzir o valor gasto em diárias para a vida prática da população:
| Se usado em… | Referência (PR/2026) | Quantidade possível |
|---|---|---|
| Cestas básicas (Curitiba, maio/26) | R$ 843,13 | ≈ 717 cestas |
| Moradias populares de 40 m² (estimativa SINAPI-PR) | ≈ R$ 90.500/unidade | ≈ 6 casas completas |
| Exames laboratoriais simples pelo SUS (sangue, urina, fezes) | ≈ R$ 8/exame | ≈ 75.583 exames |
| Exames de imagem básicos (raio-X, ultrassom, mamografia, ECG) | ≈ R$ 35/exame | ≈ 17.276 exames |
| Exames de média/alta complexidade (tomografia, ressonância, endoscopia, colonoscopia) | ≈ R$ 250/exame | ≈ 2.418 exames |
| Medicamentos básicos via Farmácia Popular/CBAF (diabetes, hipertensão, saúde da mulher) | ≈ R$ 17,99/habitante/ano (contrapartida PR) | ≈ 33.611 pessoas atendidas por 1 ano |
Esse último número merece destaque: 33.611 pessoas é quase 10 vezes toda a população de Sulina. Em outras palavras, o valor gasto em diárias e viagens em 18 meses seria suficiente para custear medicamentos básicos para diabetes, hipertensão e saúde da mulher de toda a cidade — e ainda sobraria para abastecer praticamente outros nove municípios do mesmo tamanho, por um ano inteiro.
O que diz a lei — e o que o cidadão pode fazer
Pela Lei de Acesso à Informação, qualquer morador pode protocolar um pedido formal pedindo a relação completa de diárias, com finalidade, destino, comprovantes de despesa e relatório de viagem de cada beneficiário — tanto na Prefeitura quanto na Câmara. A prestação de contas do prefeito também é analisada anualmente pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), que pode ser provocado por denúncia de qualquer cidadão, assim como o Ministério Público do Paraná (MPPR), por meio de suas promotorias de Sulina ou da regional de Pato Branco.
Nota da reportagem: os valores apresentados nesta matéria foram extraídos dos portais oficiais de transparência da Prefeitura e da Câmara Municipal de Sulina (PR), referentes a diárias e despesas de viagem registradas em 2025 e 2026. Esta reportagem está aberta para publicar a manifestação oficial do município, da Câmara de Vereadores e de todos os nomes citados sobre os valores recebidos e sua destinação. Pedidos de esclarecimento podem ser enviados aos canais de ouvidoria da Prefeitura e da Câmara de Sulina.
Equipe
Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
