Caso Voepass: Laudo da PF aponta que avião “não deveria estar no ar” e confirma indiciamentos

Documento apresentado a familiares e advogados em Campinas (SP) aponta que a aeronave “não deveria estar no ar”. Investigados, que antes eram tratados como testemunhas, passam a responder formalmente pelo desastre que vitimou 62 pessoas em agosto de 2024.
Representantes da assistência de acusação e familiares das 62 vítimas do voo 2283 da Voepass participaram, nesta terça-feira (30), de uma reunião decisiva na sede da Polícia Federal (PF) em Campinas, interior de São Paulo. A pauta central foi a apresentação do laudo pericial técnico que embasará a conclusão do inquérito sobre a queda da aeronave em Vinhedo (SP), ocorrida em agosto de 2024.

O documento, com mais de 200 páginas, chegou a uma conclusão severa: a Polícia Federal confirmou que haverá indiciamentos criminais no caso.
Sequência de Negligências e Mudança de Status
Segundo o laudo técnico, a aeronave da companhia aérea jamais deveria ter decolado. Os peritos descrevem uma rotina de negligências dentro da empresa, impulsionada pela busca por lucro e pela ausência de manutenção adequada.
Como reflexo dessas conclusões, o status jurídico de diversas pessoas foi alterado. Indivíduos que até então haviam sido ouvidos apenas como testemunhas passaram a ser intimados na condição de investigados.
“O laudo pericial trouxe mais elementos. Pessoas que tinham sido ouvidas como declarantes agora estão sendo chamadas como investigadas.” — Luciano Katarinhuk, advogado da assistência de acusação.
O delegado responsável garantiu aos familiares que o inquérito será concluído até o fim de julho. Em seguida, será encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF), que decidirá sobre a denúncia formal. Fátima Albuquerque, presidente da Associação dos Familiares das Vítimas do Voo 2283 e mãe da médica Arianne Albuquerque (uma das vítimas), afirmou que os dados apresentados reforçam a percepção de que já há indícios claros de responsabilidade criminal.
A Caixa-Preta e os Últimos Momentos
Pela primeira vez, os familiares tiveram acesso ao conteúdo dos gravadores da aeronave. A PF disponibilizou o áudio e a transcrição da cabine, mas, devido ao forte impacto emocional, o grupo optou apenas pela leitura do material transcrito.
O conteúdo segue sob sigilo a pedido da Polícia Federal para preservar as apurações, decisão acatada pela assistência de acusação. Baseado no relatório preliminar do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), sabe-se que:
- Três minutos antes do acidente, o avião comunicou à torre de São Paulo que estava no ponto ideal para iniciar a descida para Guarulhos.
- Às 13h21 do dia 9 de agosto de 2024, a aeronave começou a perder altitude repentinamente, entrando em parafuso.
- A queda, registrada em vídeo, durou cerca de um minuto.
- O ATR-72 500 (prefixo PS-VPB) caiu sobre o Residencial Recanto Florido, em Vinhedo (SP).
- Não houve feridos em solo, mas o desastre resultou no acidente aéreo mais grave no Brasil desde a queda do voo 3054 da TAM, em 2007.
Vidas Interrompidas
A tragédia ceifou a vida de 58 passageiros e 4 tripulantes. Entre as vítimas estavam professores universitários, um casal de aposentados, duas crianças (de três e quatro anos) e médicos, em sua maioria oncologistas a caminho de um congresso em São Paulo. Vinte e sete passageiros residiam em Cascavel (PR), cidade de origem do voo.
A tripulação era formada por:
- Danilo Santos Romano (35 anos): Comandante e ex-instrutor de voo, atuava como piloto havia dez anos.
- Humberto de Campos Alencar e Silva (61 anos): Copiloto com mais de 5 mil horas de voo e quase cinco anos na empresa.
- Débora Soper Ávila (28 anos): Comissária de bordo.
- Rubia Silva de Lima (41 anos): Comissária de bordo, com 14 anos de dedicação à companhia.
Nota: Minutos antes da decolagem, o copiloto Humberto enviou mensagens à esposa mencionando apreensão com a rotina de voos do dia, mas garantiu que chegariam bem — uma despedida trágica e inesperada.
“Apagão” Administrativo em Cascavel
A origem do voo é peça central da investigação da PF. O processo administrativo nº 31.696/2024 revelou que a Voepass operou no Aeroporto Regional do Oeste, em Cascavel, entre 31 de março e 18 de junho de 2024, sem contrato administrativo vigente.
- A companhia usava irregularmente a área de check-in e um espaço de 70 m² para manutenção devido a pendências em certidões negativas de débitos, incluindo débitos trabalhistas e de FGTS.
- A Transitar, autarquia municipal então gerida por Simoni Soares da Silva, reconheceu a falha pública e abriu um Processo Administrativo Disciplinar para apurar responsabilidades.
- A 7ª Promotoria de Proteção ao Patrimônio Público instaurou uma notícia de fato após denúncias de exploração comercial irregular.
No âmbito político, a Comissão Externa da Câmara dos Deputados, criada para investigar o acidente, levanta suspeitas. Segundo o colunista Lauro Jardim (O Globo), o relator da comissão, deputado federal Nelsinho Padovani (União-PR), teria atuado em conflito de interesses.
- Dias antes de a convocação ser cancelada, o prefeito assinou um Termo de Acordo e Compromisso (TAC) que liberou obras e vendas de lotes milionários no Loteamento Laranjeiras.
- A principal beneficiária foi a imobiliária Nelson Padovani & Cia, pertencente à família do relator.
- Procurado, Padovani negou as acusações, justificando que sua família atua no setor imobiliário há 50 anos.
Próximos Passos
Com o fim do prazo do inquérito da PF previsto para julho, as atenções se voltam ao MPF. Paralelamente, o relatório final do Cenipa, considerado essencial para fechar a apuração técnica, encontra-se com cerca de 75% de conclusão.
“O que nós sabemos de definitivo é que haverá indiciamentos no caso da Voepass. O voo 2283 não ficará em vão.” — Luciano Katarinhuk.
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Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
