O Discurso e a Prática: Vídeo de Paranhos contra a “mamata” viraliza após família ter cargos no Estado Esposa, e primo do ex-prefeito recebem quase R$ 15 mil mensais em comissões; dupla também ganhou assento em junta que julga multas em Cascavel.

Gravação voltou a circular nas redes depois de reportagem revelar que familiares do ex-prefeito recebem quase R$ 15 mil mensais em cargos comissionados, expondo o contraste entre o discurso e a prática.
Cascavel (PR) — Um vídeo antigo do ex-prefeito de Cascavel, Leonaldo Paranhos, voltou a circular com força nas redes sociais nas últimas horas. Na gravação, Paranhos afirma, em tom de promessa moralizadora, que ninguém iria “mamar na Prefeitura”.
O ressurgimento não é por acaso: a gravação começou a ser compartilhada logo após uma reportagem publicada na última sexta-feira (10) revelar que a esposa e o primo do ex-prefeito ocupam cargos comissionados na administração indireta do Governo do Estado do Paraná. Além disso, ambos acabam de ganhar assentos na Junta Administrativa de Recursos de Infrações (JARI), órgão que julga recursos de multas de trânsito em Cascavel.
O eleitor que reviu o vídeo fez a conta e a pergunta: se ninguém podia “mamar na Prefeitura”, por que a família do próprio Paranhos vive dos impostos do contribuinte?
O Discurso x A Prática
No vídeo, a mensagem é de rigidez com o dinheiro público. A promessa embalou a imagem de gestor durão, inimigo do fisiologismo e guardião do cofre, figurino com o qual Paranhos se apresentou ao eleitor de Cascavel.
No entanto, os registros do Portal da Transparência do Estado do Paraná (Portal PIÁ) revelam outra cena. Enquanto o discurso condenava quem “mama” na máquina pública, dois integrantes da família do ex-prefeito construíram vínculos remunerados em estatais do Governo do Estado — em cargos comissionados, preenchidos por indicação política e sem concurso público.
Resumo das Nomeações e Remunerações
| Nome | Vínculo com o ex-prefeito | Cargo / Lotação | Remuneração Bruta Mensal |
| Fabiola Anselmo Paranhos da Silva | Esposa | Membro do Comitê de Indicação e Avaliação (Celepar – Curitiba) | R$ 3.301,97 |
| Gerson Paranhos de Oliveira | Primo | Assessor Estratégico Regional III (Cohapar – Cascavel) | R$ 11.509,50 |
| Total Mensal Pago pelo Contribuinte | R$ 14.811,47 |
A conta fecha em R$ 177.737,64 por ano, sem contar 13º salário, férias e benefícios.
Além disso, a fatura pode crescer: os dois foram nomeados membros titulares da JARI, na categoria “entidade ligada à área de trânsito”. Em muitas cidades, o colegiado paga jeton (remuneração extra) por sessão de julgamento. Questionada por dois dias seguidos sobre a existência desse pagamento e sobre os critérios das nomeações, a Transitar (autarquia de trânsito local) visualizou as mensagens, mas não respondeu.

A Fala é Apenas Fala?
O vídeo que ressurgiu funciona como um espelho incômodo. De um lado, o Paranhos do palanque; do outro, o Paranhos da vida real, cujos familiares têm contracheque garantido pelas estatais do Estado e cadeiras na junta que decide o destino das multas dos motoristas.
A moralidade anunciada, ao que os registros indicam, valia para a Prefeitura de Cascavel, mas não alcançou o Palácio Iguaçu, onde os cargos da família foram carimbados.
As Perguntas Que Ficam
O ressurgimento do vídeo impõe questionamentos diretos à administração pública e aos envolvidos:
- A promessa de que ninguém iria “mamar” valia apenas para os outros e não para a própria família?
- Qual é a qualificação técnica de Fabiola e de Gerson para os cargos que ocupam na Celepar e na Cohapar, e para julgar recursos de multas na JARI?
- Qual “entidade ligada à área de trânsito” os dois representam formalmente na junta?
- Haverá jeton ou qualquer verba adicional pela atuação na JARI, elevando ainda mais a fatura paga pelo povo?
O Outro Lado
O espaço permanece aberto para a manifestação de Leonaldo Paranhos, Fabiola Anselmo Paranhos da Silva, Gerson Paranhos de Oliveira. Eventuais respostas e esclarecimentos enviados à nossa equipe serão publicados na íntegra neste espaço.
Nota da Redação: Nenhuma das pessoas citadas foi, até o momento, formalmente acusada de irregularidade por órgão de controle em razão desses vínculos. As informações sobre cargos e remunerações constam de registros públicos do Portal da Transparência do Paraná (Portal PIÁ); a titularidade na JARI consta do site do Detran-PR.
Nota de correção — Uma versão anterior desta reportagem informava, incorretamente, que a JARI (Junta Administrativa de Recursos de Infrações) de Cascavel seria vinculada à Transitar. A informação foi corrigida: a JARI não é ligada à Transitar. Trata-se de órgão colegiado previsto no Código de Trânsito Brasileiro (Lei nº 9.503/97), responsável pelo julgamento em primeira instância dos recursos contra penalidades de trânsito, com composição publicada pelo Detran-PR. As demais informações da matéria — cargos, remunerações e nomeações, baseadas em registros públicos — permanecem inalteradas. O texto foi atualizado em 12/07/2026.
Equipe
Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
