Xenofobia em Cascavel: adolescente venezuelana é agredida pela terceira vez e mãe relata omissão da escola; veja o vídeo

Menina de 15 anos foi espancada por sete colegas e deixada caída na rua. O motivo apontado pela família é o fato de a jovem ser venezuelana e não falar bem o português. O caso escancara a xenofobia nas escolas e levanta questionamentos graves sobre a postura da direção do colégio.
Uma adolescente de 15 anos foi brutalmente agredida por sete colegas na manhã desta sexta (10) no Bairro Universitário, em Cascavel. A vítima, que é venezuelana, foi socorrida pelo Siate na Rua Três Amigos e encaminhada à UPA com várias contusões. Ela foi deixada caída na rua pelos agressores logo após a saída das aulas.
Não foi um episódio isolado. Foi a terceira agressão. O motivo, segundo a mãe da jovem, é um só: xenofobia.
“Elas falam só que você foi da Venezuela, porque ela não fala bem o português”, relatou a mãe aos prantos em entrevista à CGN. “É a terceira vez que batem nela. Duas vezes bateram nela dentro da escola e agora os estudantes bateram nela fora da escola, saindo da escola, e deixaram ela jogada na rua.”
Preconceito com nome e endereço
A família veio da Venezuela em busca de uma vida melhor. Trabalha, estuda e, nas palavras da própria mãe, “não está fazendo mal pra ninguém”. Ainda assim, a adolescente virou alvo constante de colegas pelo simples fato de ser estrangeira e ter dificuldade com o idioma. Questionada sobre a razão das agressões, a mãe não hesitou e afirmou que é um preconceito mesmo.
O caso expõe uma realidade incômoda. A xenofobia contra venezuelanos não é um fenômeno distante, pois está dentro das salas de aula sendo praticada por adolescentes contra outros adolescentes. É preciso perguntar de onde esses jovens estão absorvendo esse ódio. Crianças não nascem xenófobas. Elas repetem o que ouvem em casa, nas redes sociais e no debate público.
Nesse ponto, cabe uma reflexão que vai além do caso. A polarização política brasileira, com discursos inflamados vindos de todos os lados (esquerda e direita), transformou imigrantes em munição de disputa ideológica. Enquanto adultos usam venezuelanos como argumento político, adolescentes transformam isso em agressão no portão da escola. Basta. Uma menina de 15 anos não é pauta de guerra cultural. É uma estudante que, nas palavras da mãe, “só quer estudar”.
A conduta da direção: e se a menina tivesse morrido?
Talvez o aspecto mais grave do relato da mãe seja a postura da direção do colégio. Segundo ela, após a segunda agressão, a família pensou em acionar a Justiça e foi desencorajada pela própria diretora.
“A diretora do colégio falou pra não colocar na Justiça, porque daí o colégio ia ser implicado em jornal e essas coisas, e eles não queriam isso”, contou a mãe.
Caso o relato seja confirmado, o fato configura uma conduta de extrema irresponsabilidade. Uma diretora de escola, que tem o dever legal de proteger seus alunos, teria priorizado a imagem da instituição em detrimento da segurança de uma adolescente vítima de agressões reiteradas. O resultado dessa suposta omissão está aí: uma terceira agressão, dessa vez em grupo, com a vítima abandonada ferida na rua e levada de ambulância para a UPA.
As perguntas que se impõem são inevitáveis. E se a adolescente tivesse ficado em estado grave? E se tivesse morrido? A diretora assumiria a responsabilidade? Quem responderia pela vida de uma menina cuja família foi orientada a ficar em silêncio para não implicar o colégio na mídia?
Vale lembrar que o Estatuto da Criança e do Adolescente impõe a educadores e diretores o dever de comunicar às autoridades casos de violência contra menores. Orientar uma família a não registrar boletim de ocorrência não é apenas antiético, mas pode configurar omissão com consequências legais. A imagem de uma escola jamais pode valer mais do que a integridade física de uma aluna.
“A gente só quer viver tranquilo”
A mãe da adolescente resume o drama de milhares de famílias imigrantes no Brasil:
“A gente veio pra cá, nem tem condições de voltar. A gente foi bem acolhido aqui, pra agora acontecer essas coisas com os jovens da escola. Imagina o que vai acontecer com o adulto, os pais dessas crianças”.
Ela encerra com um apelo que deveria envergonhar a toda a sociedade: “Minha filha só quer estudar, gente. Ela quer estudar desde que ela chegou nesse colégio. Só porque ela não fala direito o português não é justo”. Sobre o sofrimento da filha, foi categórica ao afirmar que ela sofre muito.
O caso agora reacende o debate sobre xenofobia e bullying nas escolas de Cascavel e exige respostas imediatas da escola, da Secretaria de Educação, do Conselho Tutelar e da sociedade. O silêncio, neste caso, já se provou cúmplice.
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Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
