Copel privatizada desmonta patrimônio de décadas e coloca à venda sedes que garantem a luz de milhões de paranaenses; veja valores

Cascavel, Foz do Iguaçu e Toledo entram na lista de 72 imóveis avaliados em R$ 296 milhões; empresa não diz para onde vão as equipes de manutenção, e cresce o temor de retrocesso na qualidade do serviço
A Copel, privatizada em 2023, entrou em uma nova e mais delicada fase de seu processo de desmonte patrimonial. Depois de se desfazer de usinas hidrelétricas, termelétricas e participações em empresas do setor energético, a companhia agora vende a própria espinha dorsal de sua operação: as sedes regionais que, por décadas, funcionaram como base do atendimento à população e ponto de partida das equipes que mantêm a rede elétrica funcionando.
Ao todo, 72 imóveis espalhados pelo Paraná foram colocados no mercado, com valor estimado em R$ 296,4 milhões. Os anúncios estão publicados abertamente em um site de classificados na internet — destino pouco usual para um patrimônio construído ao longo de gerações com recursos dos próprios paranaenses. Apenas dez desses imóveis concentram cerca de R$ 222,7 milhões, ou 75% de todo o pacote.
Entre eles estão três estruturas vitais para o Oeste do Estado: as sedes de Cascavel, Foz do Iguaçu e Toledo.
Não são prédios vazios. São a operação da empresa
É preciso deixar claro o que está sendo vendido. Não se trata de imóveis ociosos, salas desocupadas ou terrenos parados. As sedes regionais abrigam setores de atendimento ao consumidor, almoxarifados, estacionamentos de caminhões, bases das equipes de manutenção e toda a logística que sustenta o fornecimento de energia para milhares de famílias, hospitais, escolas e empresas.
O complexo de Cascavel, com 12,6 mil metros quadrados, concentra todas as necessidades operacionais da empresa no município — e está à venda por R$ 43,3 milhões. Em Foz do Iguaçu, a unidade da Vila Yolanda, avaliada em R$ 4,98 milhões, ocupa mais de cinco mil metros quadrados em uma das áreas mais valorizadas da cidade e reúne escritórios, atendimento ao público e o pátio de onde saem, todos os dias, os veículos que atendem as ocorrências da rede.
É desses endereços que partem caminhões, equipamentos e materiais quando uma tempestade derruba postes, quando um transformador queima, quando um bairro inteiro fica no escuro. Vender essas bases sem apresentar um plano claro de substituição não é “otimização de ativos”. É apostar a confiabilidade do serviço público essencial no escuro — literalmente.
A pergunta que a Copel não responde: para onde vai a operação?
A companhia afirma que a venda integra um “projeto de revitalização do patrimônio imobiliário” e garante que não haverá prejuízo ao atendimento. Mas até agora não informou onde as estruturas serão reinstaladas, quais serão os novos endereços, quando ficarão prontos, nem como as equipes operacionais serão redistribuídas.
O discurso é conhecido. É o mesmo repertório usado em privatizações Brasil afora: “eficiência”, “racionalização”, “modernização”. Na prática, o que se vê com frequência é o oposto — enxugamento de equipes, terceirização precária, aumento no tempo de resposta às ocorrências e um atendimento cada vez mais distante do consumidor, empurrado para aplicativos e centrais telefônicas enquanto os balcões físicos fecham as portas.

A distância entre a base operacional e o ponto da ocorrência não é um detalhe contábil. É a diferença entre uma cidade que recupera a luz em uma hora e uma cidade que passa a noite no escuro. Quem já viveu apagões prolongados no interior do Paraná sabe o que isso significa: alimentos estragando na geladeira, comércio fechado, hospitais operando no limite. Se as bases regionais desaparecem sem substitutas à altura, a pergunta que fica é incômoda, mas inevitável: voltaremos ao tempo em que era preciso ligar o motor a diesel para ter luz em casa?
Até a memória da empresa foi posta à venda
O pacote de desinvestimentos não poupa nem a história. Entre os imóveis anunciados está o prédio que abrigava o Espaço Energia — Museu Copel, avaliado em R$ 33 milhões, onde eram preservados documentos e objetos da trajetória da companhia, incluindo peças ligadas ao ex-presidente Pedro Viriato Parigot de Souza, nome incontornável da história da energia no Paraná.

O simbolismo é difícil de ignorar. A empresa que ajudou a eletrificar o Estado, que levou luz ao campo e às cidades, agora vende até o edifício que guardava sua própria memória.
O roteiro da privatização se cumpre, capítulo por capítulo
A sequência é conhecida e segue um roteiro previsível. Primeiro, vendeu-se a geração: participações na Compagás, na Usina Hidrelétrica Dona Francisca, nas termelétricas de Araucária e Figueira, além de pequenas centrais hidrelétricas. Agora, avança-se sobre o patrimônio físico — as sedes, os pátios, os almoxarifados. O que resta de uma distribuidora de energia quando ela se desfaz das bases de onde opera?
Para o acionista, cada venda é receita no balanço e dividendo no bolso. Para o consumidor paranaense — que durante décadas pagou, tarifa após tarifa, a construção desse patrimônio —, o que se anuncia é uma empresa mais leve, mais enxuta e, tudo indica, mais distante.
Enquanto a Copel sustenta que sairá do processo “mais moderna e eficiente”, cresce nos municípios do interior a sensação de abandono. As sedes que serviram de referência para consumidores e trabalhadores por gerações viram ativos imobiliários em um site de classificados. E a conta dessa “modernização”, como de costume, tende a chegar primeiro para quem depende do serviço — e por último para quem lucra com ele.
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Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
