“Esta bosta nunca prestou”: caixa-preta revela que avião da Voepass já enfrentava falhas graves antes da tragédia de Vinhedo

Laudo da Polícia Federal aponta que aeronave voava havia meses com sistema de degelo defeituoso e não deveria ter sido liberada; famílias das 62 vítimas ouviram, pela primeira vez, as conversas da cabine. Inquérito deve ser concluído em julho, com indiciamentos
Quase dois anos após a queda do voo 2283 da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em 9 de agosto de 2024, os familiares das vítimas tiveram acesso, pela primeira vez, ao conteúdo da caixa-preta da aeronave. As transcrições das conversas na cabine e o laudo do Instituto Nacional de Criminalística foram apresentados nesta terça-feira (30), em reunião na sede da Polícia Federal em Campinas (SP).

O material revela um cenário alarmante: o ATR 72-500, prefixo PS-VPB, já apresentava problemas sérios de acúmulo de gelo nas asas no trecho de ida, entre Guarulhos e Cascavel — horas antes da tragédia. Em meio às falhas, um dos pilotos desabafou na cabine: “Você sabe que esta bosta nunca prestou”.
Em outro momento do voo de ida, ainda segundo a transcrição, os tripulantes chegaram a expressar alívio por não terem caído, depois de enfrentar duas situações críticas provocadas pelos defeitos da aeronave.
Avião não tinha condições de voar, diz perícia
O laudo pericial da PF, com mais de 200 páginas, sustenta que o sistema de degelo do ATR 72-500 já não funcionava corretamente havia tempo. O piloto que operou o avião em um voo anterior ao acidente percebeu a falha, mas não fez o registro formal exigido no diário de bordo técnico — documento obrigatório que autoriza a intervenção da equipe de manutenção.
A investigação não se limitou ao dia da queda. Os peritos analisaram cerca de dois meses de operações anteriores da aeronave e identificaram o que classificam como um “modus operandi” recorrente dentro da companhia: falhas eram sistematicamente ignoradas, sem manutenção adequada e sem registro formal dos defeitos, para que o avião não parasse de voar.
A conclusão da perícia é contundente: com o histórico de defeitos acumulados, a aeronave não deveria ter sido liberada para operar em condições de chuva e possível formação de gelo — exatamente o cenário meteorológico enfrentado na rota entre Cascavel e Guarulhos naquele 9 de agosto.
“Gelo, gelo, gelo”: os minutos finais
A transcrição da caixa-preta mostra que, nos instantes que antecederam a queda, o avião já dava sinais claros de perda de sustentação. Mesmo assim, a tripulação manteve tom de aparente calma na cabine, repetindo diversas vezes apenas a palavra “gelo” — sem verbalizar qualquer protocolo de emergência.
Dados de rastreamento de voo ajudam a dimensionar a velocidade da tragédia: a aeronave despencou milhares de pés em cerca de dois minutos, entrando em queda em parafuso sem chance de recuperação, antes de atingir a área residencial de um condomínio em Vinhedo. Nenhum dos 58 passageiros e 4 tripulantes sobreviveu. Foi o maior acidente da aviação comercial brasileira desde 2007.
Voepass operou sem contrato em Cascavel, revelou a CNN
As irregularidades da companhia não se restringiam à manutenção. Reportagem da CNN Brasil, baseada em documentos do processo administrativo 31.696/2024, revelou que a Voepass operou no aeroporto de Cascavel sem contrato formal entre 31 de março e 18 de junho de 2024 — período imediatamente anterior à tragédia.
O contrato, firmado com a Transitar, autarquia municipal responsável pela administração do Aeroporto Regional do Oeste, é o documento que formaliza a permissão de uso das áreas de check-in e de manutenção de aeronaves no terminal. Segundo a apuração, a autorização de contratação direta, por dispensa de licitação, só foi assinada pela presidente da Transitar em maio de 2024, e o contrato foi regularizado apenas em junho — quando a empresa já operava havia meses no local.
Procurada à época, a Voepass afirmou que “todas as suas operações são regulares”. A Transitar, por sua vez, encaminhou nota da 12ª Promotoria de Justiça de Cascavel afirmando não ter identificado irregularidades — manifestação, porém, emitida em setembro de 2024, depois que o contrato já havia sido assinado.
A CNN também obteve, junto a relatórios revelados pelo jornal O Globo, registros de que o mesmo avião ficou com o sistema de degelo inoperante ao menos seis vezes em julho de 2023, em inspeções realizadas em Ribeirão Preto (SP), Porto Alegre (RS) e Congonhas (SP). Em pelo menos uma ocasião, houve recomendação técnica expressa para que a aeronave não voasse para a região Sul do país, justamente para evitar áreas propícias à formação de gelo — orientação que não foi seguida.
Duas investigações, objetivos distintos
O inquérito da Polícia Federal tem como objetivo apurar responsabilidades cíveis e criminais pela tragédia. Ele corre em paralelo à investigação do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), órgão da Força Aérea Brasileira, cujo foco não é punir, e sim identificar com rigor os fatores humanos, operacionais e técnicos que contribuíram para o acidente, a fim de evitar que falhas semelhantes se repitam.
A investigação técnica do Cenipa, segundo o órgão, já está cerca de 95% concluída. Conforme apuração exclusiva da CNN Brasil, o relatório final deve incluir a recomendação de substituição de uma peça ligada ao sistema antigelo em aeronaves ATR — medida preventiva com potencial impacto sobre operadores do modelo em todo o mundo.
Indiciamentos à vista
O inquérito da PF deve ser concluído ainda neste mês de julho e, em seguida, encaminhado ao Ministério Público Federal. A expectativa é que o delegado responsável peça o indiciamento de pessoas ligadas à liberação da aeronave, à manutenção e à “cultura” corporativa de ignorar procedimentos de segurança para manter a operação — pessoas que antes haviam sido ouvidas apenas como testemunhas já voltaram a ser chamadas, agora na condição de investigadas.
“O voo 2283 não ficará em vão. As pessoas que perderam a vida terão uma resposta, e os familiares também”, afirmou o advogado Luciano Katarinhuk, representante da Associação dos Familiares das Vítimas do Voo 2283 e assistente de acusação no caso.

Para Fátima Albuquerque, presidente da associação e mãe da médica Arianne Albuquerque, uma das vítimas, a queda do avião não pode ser tratada como fatalidade. “Não foi um acidente, foi uma tragédia anunciada, uma construção de negligência”, disse. “Não fazer uma manutenção adequada, não reportar um erro e submeter uma tripulação a uma situação de risco são questões que precisam ser apuradas.”
A Voepass, que teve o certificado de operação suspenso pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) em 2025 por falhas graves de segurança, participou da reunião com os familiares, mas não se manifestou publicamente.
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Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
