Manobra no Paraná: Padovani cede mandato na Câmara a aliado condenado por improbidade

Articulada com o governo estadual, licença de Nelsinho Padovani (União Brasil) abre vaga para Santin Roveda, ex-prefeito sentenciado por fraude em contratos públicos. Decisão gera questionamentos sobre o respeito ao eleitor.
A justificativa oficial fala em “fortalecimento da federação” e obediência a um pedido direto do governador Ratinho Junior (PSD). Na prática, a licença temporária do deputado federal Nelsinho Padovani (PP) resulta em um cenário politicamente controverso: a entrega de uma cadeira na Câmara dos Deputados a Santin Roveda (UNIÃO BRASIL).
Ex-prefeito de União da Vitória e ex-presidente do Detran-PR, Roveda assumirá o mandato em Brasília logo após ter sido condenado pela Justiça por improbidade administrativa.
O episódio escancara o descompasso entre o discurso político de defesa dos interesses do estado e a realidade das alianças firmadas nos bastidores. A movimentação levanta um questionamento imediato: o que pensam os eleitores de Padovani ao verem seu voto ser terceirizado, em nome de acordos de cúpula, para um político sentenciado por fraudar contratos públicos?
O discurso oficial e o que ficou de fora
Em suas redes sociais, Nelsinho Padovani embalou o afastamento com um tom de missão partidária e lealdade ao Executivo estadual. O parlamentar afirmou que a decisão possibilita a posse do “amigo Santin Roveda” e fortalece a federação entre o Progressistas e o União Brasil no Paraná.
“Tenho convicção de que sua experiência como prefeito (…) e presidente do Detran-PR contribuirá significativamente para os debates e para a defesa dos interesses dos paranaenses”, publicou Padovani, desejando um mandato produtivo ao suplente.
O que o texto do parlamentar preferiu omitir, no entanto, foi o capítulo mais recente — e desabonador — do currículo de Roveda na gestão pública.
Emergência fabricada e burla à licitação
A “experiência” que Santin Roveda leva para a Câmara Federal inclui uma pesada sentença proferida pelo juiz Morian Nowitschenko Linke, da 1ª Vara Cível de União da Vitória. O processo, originado de uma ação civil pública do Ministério Público do Paraná (MPPR), investigou irregularidades na contratação de serviços de coleta de lixo reciclável em 2017.
A Justiça concluiu que a gestão de Roveda rescindiu deliberadamente um contrato vigente com a cooperativa de catadores local (Coopertrage) para forçar uma contratação emergencial com a empresa Ecovale — tudo feito por meio de dispensa de licitação.
O detalhe que embasou a condenação: a emergência não existia. Ela foi artificialmente criada pela prefeitura.
O Judiciário apontou provas de que caminhões da Ecovale já operavam na cidade antes mesmo da assinatura do contrato, e de que reuniões de “transição” ocorreram semanas antes do rompimento oficial com a cooperativa. Uma violação direta aos princípios de legalidade, impessoalidade e moralidade administrativa.
As punições impostas a Roveda na sentença de primeira instância (da qual ainda cabe recurso) incluem:
Multa financeira: Pagamento de multa civil equivalente ao dobro de seu salário de prefeito à época.
Restrição comercial: Proibição de assinar contratos com o poder público ou receber benefícios fiscais por quatro anos.
Anulação legal: Declaração de nulidade de todos os contratos emergenciais firmados na ocasião.
Desgaste no governo estadual e o recado aos eleitores
A troca de cadeiras expõe uma contradição ética que respinga não apenas no mandato de Padovani, mas no próprio Palácio Iguaçu. Santin Roveda é um nome forte da base de Ratinho Júnior e vinha comandando o Detran-PR, órgão de orçamento bilionário e altíssima visibilidade.
Sua ida para Brasília, articulada publicamente pelo próprio governador, joga luz sobre o desgaste da gestão estadual em abrigar e promover quadros condenados. Para a oposição política, o episódio evidencia fragilidades na escolha dos ocupantes de cargos estratégicos e serve de munição contra a imagem que o governo tenta projetar nacionalmente.
Por fim, a manobra deixa uma fatura amarga para a base eleitoral de Nelsinho Padovani. O deputado escolhe abrir mão de seu mandato — outorgado democraticamente nas urnas — para dar foro e poder a alguém condenado por má gestão do dinheiro público.
A articulação atinge com sucesso o objetivo de fortalecer a aliança partidária. Porém, a mensagem enviada aos paranaenses é dura: na balança do poder em Brasília, os acordos políticos para as eleições de 2026 pesam muito mais do que a ficha limpa de quem senta na cadeira.
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Editor Chefe: Evandro Nicolao
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