Mecabô anuncia doação de salário em ano eleitoral, e internautas reagem: “Só durante a campanha e depois?”

Mecabô anuncia doação de salário em ano eleitoral, e internautas reagem: “Só durante a campanha e depois?”
Publicado em 03/07/2026 às 19:15

Vice-prefeito de Cascavel promete abrir mão do subsídio de R$ 21 mil enquanto disputa vaga na Câmara Federal. Anúncio, feito 18 meses após a posse e dias depois do lançamento da pré-candidatura, gera onda de críticas nas redes. Ao mesmo tempo, o Partido Novo, que se apresenta como inimigo do dinheiro público na política, prepara pela primeira vez o uso integral do fundo eleitoral, estimado em cerca de R$ 37 milhões para 2026.

Cascavel (PR), julho de 2026

O vice-prefeito de Cascavel, Henrique Mecabô (Novo), de 30 anos, anunciou nas redes sociais que abrirá mão do próprio salário durante o período em que estiver em campanha por uma vaga de deputado federal. “Chega desse modelo de política onde o SEU dinheiro vai pelo ralo bancando privilégio de político. Conte comigo não só pra abrir mão, mas também pra lutar contra esses privilégios dos políticos e do judiciário”, escreveu o pré-candidato.

O gesto, porém, produziu efeito inverso ao pretendido. Nos comentários das publicações, a reação predominante não foi de aplauso, mas de desconfiança, sendo o momento escolhido para o anúncio o centro das críticas: ele ocorre a poucas semanas do início oficial da campanha e cerca de duas semanas depois de Mecabô lançar formalmente sua pré-candidatura, em evento realizado no dia 18 de junho, no Círculo Italiano de Cascavel, ao lado do senador e pré-candidato ao governo do Paraná, Sergio Moro (PL), e dos pré-candidatos ao Senado Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL).

“Ano eleitoral, né”

Nas redes sociais, os comentários se acumulam em tom de ironia e ceticismo. “Marketing”, resumiu uma internauta. “Só durante a campanha e… depois?”, questionou outro. Um terceiro escreveu: “Os extrema direita adoram enganar o povo! Passam vários anos sem fazer nada… mas chega perto da eleição eles aparecem de todo quanto é jeito!”. Houve quem apontasse diretamente o calendário: “Ano eleitoral, né”, e quem cobrasse transparência sobre o destino do dinheiro: “Doará pra quem?”.

Outros comentários lembraram que a renúncia ao salário é prática recorrente de candidatos do Partido Novo em campanha e questionaram o alcance real do gesto. “Nossa, que bondoso, doar o salário dele. Pensa quanto já tem guardado, né? Conversa pra boi dormir”, ironizou um morador. “Porque ele não fez isto antes da politicagem começar?”, perguntou outra internauta. Houve ainda quem oferecesse, em tom de deboche, a própria chave Pix para receber a doação prometida.

A desconfiança tem endereço conhecido na literatura política: promessas de renúncia salarial feitas em ano eleitoral funcionam como peça de comunicação de baixo custo e alto retorno simbólico, sobretudo quando o valor renunciado é modesto diante dos recursos que efetivamente movem uma campanha.

18 meses de mandato: o que há de concreto?

Empossado em 1º de janeiro de 2025 na chapa encabeçada por Renato Silva, Mecabô completa agora 18 meses como vice-prefeito, com subsídio mensal bruto fixado em R$ 21.118,19, o que representa, no período, cerca de R$ 380 mil em remuneração paga pelos cofres municipais.

A reportagem buscou, em registros oficiais da Prefeitura de Cascavel e na imprensa local, realizações concretas atribuíveis diretamente ao vice-prefeito nesse período. O que se encontra, essencialmente, são dois momentos de maior visibilidade: as duas ocasiões em que Mecabô assumiu interinamente o comando do Executivo durante licenças do prefeito (por uma semana em julho de 2025, quando se tornou o prefeito mais jovem da história da cidade, e por oito dias em fevereiro de 2026). Na primeira interinidade, anunciou o “início do estudo” para implantação de um novo núcleo industrial, demanda do empresariado local.

Em entrevistas, o próprio Mecabô afirma liderar na gestão as “agendas de inteligência e desenvolvimento econômico”, com foco na criação de um parque industrial e na atração de investimentos. São, contudo, pautas em fase de articulação, sem entregas mensuráveis anunciadas publicamente até aqui. É verdade que o cargo de vice-prefeito tem, por natureza, atribuições formais limitadas, mas é exatamente esse o ponto levantado pelos críticos: se a função rende pouco em resultados verificáveis, a renúncia ao salário em plena campanha soa menos como sacrifício e mais como estratégia eleitoral. “Ganha nem pra vereador”, provocou um internauta, em referência ao gesto.

O paradoxo do Novo: contra o fundão no discurso, com o fundão no caixa

O anúncio de Mecabô ganha contornos ainda mais delicados quando confrontado com a guinada do partido ao qual é filiado. O Novo construiu sua identidade sobre a recusa ao dinheiro público: rejeitou o fundo eleitoral em 2022 e transformou a bandeira em principal ativo de marketing político. Em dezembro de 2025, o partido voltou a se apresentar como “o único 100% contrário” ao orçamento que destinou R$ 5 bilhões ao fundo eleitoral de 2026.

O discurso, porém, não corresponde mais à prática. Em 2024, a legenda alterou seu estatuto para derrubar a proibição interna ao uso de verba pública em campanhas. O presidente nacional da sigla, Eduardo Ribeiro, confirmou publicamente a estratégia que dirigentes apelidaram de “all-in”: usar de uma só vez, nas eleições de 2026, todos os recursos públicos acumulados em caixa, totalizando cerca de R$ 106 milhões de fundos partidário e eleitoral não gastos em pleitos anteriores. “Para sermos competitivos, temos que usar as mesmas armas dos nossos adversários”, justificou Ribeiro.

Para 2026, a projeção de distribuição do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) reserva ao Novo aproximadamente R$ 37 milhões. E, diferentemente de 2022, desta vez o partido não abriu mão: o prazo legal para renúncia ao fundo terminou em 1º de junho, e, segundo a Consultoria Legislativa do Senado, nenhuma legenda recusou os recursos neste ciclo eleitoral, incluindo o Partido Novo.

A conta expõe a assimetria do gesto anunciado pelo vice-prefeito: os cerca de R$ 21 mil mensais que Mecabô promete doar equivalem a uma fração mínima dos milhões em dinheiro público que seu partido terá à disposição para financiar campanhas, potencialmente incluindo a dele. Questões centrais permanecem sem resposta pública do pré-candidato: sua campanha utilizará recursos do fundo eleitoral? Ele se compromete a recusá-los individualmente, como fizeram candidatos da sigla no passado? Para quem, exatamente, e com qual comprovação, será destinado o salário doado?

O outro lado

Em suas manifestações públicas, Mecabô sustenta que a decisão de disputar a Câmara nasceu da sub-representação do Oeste do Paraná em Brasília, destacando que atualmente o município conta com apenas um deputado domiciliado na região, contra os cinco que já chegou a ter. Ele afirma que consegue “cumprir as duas missões: continuar servindo a cidade e, se a população entender, buscar novos voos”. Sobre o gesto salarial, o pré-candidato o apresenta como parte de uma luta mais ampla contra os privilégios da classe política e do judiciário.

O espaço segue aberto para que o pré-candidato e o diretório estadual do Partido Novo detalhem se a campanha utilizará recursos do fundo eleitoral de 2026 e qual será o mecanismo de destinação e comprovação da doação do salário anunciada.

Nota: Valores do FEFC 2026 conforme projeções divulgadas a partir de dados do TSE e da Lei Orçamentária Anual. Subsídio do vice-prefeito conforme lei municipal aprovada pela Câmara de Cascavel para o mandato 2025-2028.

Equipe

Editor Chefe: Evandro Nicolao

Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak

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