Mal chegou à Transitar, gestão Zorek é questionada por nomeações de esposa e primo de Leonaldo Paranhos para a JARI, junta que julga recursos de multas de trânsito

Mal chegou à Transitar, gestão Zorek é questionada por nomeações de esposa e primo de Leonaldo Paranhos para a JARI, junta que julga recursos de multas de trânsito
Publicado em 10/07/2026 às 17:57

Fabiola Anselmo Paranhos da Silva e Gerson Paranhos de Oliveira, que já ocupam cargos na Celepar e na Cohapar, aparecem como titulares em junta que julga recursos de multas; autarquia não respondeu aos questionamentos da reportagem por dois dias seguidos

Cascavel (PR) — Poucas semanas depois de Edson Zorek assumir a presidência da Transitar (Autarquia Municipal de Mobilidade, Trânsito e Cidadania de Cascavel), dois nomes ligados diretamente à família do ex-prefeito Leonaldo Paranhos passaram a figurar na lista de membros titulares da JARI — a Junta Administrativa de Recursos de Infrações, órgão colegiado responsável por julgar, em primeira instância, os recursos de motoristas multados ou punidos por órgãos de trânsito.

Trata-se de Fabiola Anselmo Paranhos da Silva, esposa de Leonaldo Paranhos, e de Gerson Paranhos de Oliveira, primo do ex-prefeito. Ambos aparecem na relação oficial de titulares publicada no site do Detran-PR, indicados na categoria “entidade ligada à área de trânsito”.

A coincidência de sobrenomes não é a única questão que chama atenção. Os dois já ocupam cargos remunerados na administração indireta do Estado do Paraná, conforme registros do Portal da Transparência estadual (Portal PIÁ):

  • Fabiola Anselmo Paranhos da Silva consta como membro do Comitê de Indicação e Avaliação da Celepar (Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná), em Curitiba, com vínculo ativo e remuneração bruta de R$ 3.301,97;
  • Gerson Paranhos de Oliveira ocupa o cargo comissionado de Assessor Estratégico Regional III na Cohapar (Companhia de Habitação do Paraná), em Cascavel, com vínculo ativo e remuneração bruta de R$ 11.509,50.

O que é a JARI e por que a composição importa

A JARI é a porta de entrada de qualquer cidadão que queira contestar uma multa de trânsito. Pela legislação, as juntas devem ser compostas, em regra, por um representante do órgão autuador, um representante da comunidade e um integrante com conhecimento na área de trânsito — desenho pensado justamente para garantir julgamentos técnicos e imparciais.

É esse ponto que levanta os principais questionamentos: qual a qualificação técnica em trânsito de Fabiola e Gerson Paranhos para integrarem o colegiado? Quais critérios e avaliações foram adotados para as indicações? Os dois receberão remuneração adicional pela função — o chamado jeton, pago em muitas JARIs por sessão de julgamento — somando-se aos salários que já recebem na Celepar e na Cohapar?

Até o fechamento desta reportagem, nenhuma dessas perguntas havia sido respondida.

O silêncio da Transitar

A reportagem procurou a assessoria de comunicação (Secom) da Transitar por dois dias consecutivos, com questionamentos formais sobre os critérios das indicações, a qualificação técnica dos nomeados e a existência ou não de remuneração pela participação na JARI. As mensagens foram visualizadas, mas não respondidas.

A ausência de resposta de um órgão público sobre atos que envolvem dinheiro e estrutura públicos contraria o espírito da Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011), que impõe à administração o dever de transparência ativa. O que explica a omissão? Por que a autarquia, questionada sobre nomeações formalmente publicadas, opta pelo silêncio?

Uma década ao lado de Paranhos

O pano de fundo das indicações é a relação antiga entre o novo presidente da Transitar e a família Paranhos. Edson Zorek, advogado, foi assessor do então deputado estadual Leonaldo Paranhos na Assembleia Legislativa do Paraná entre 2010 e 2016 e, com a chegada de Paranhos à Prefeitura de Cascavel, ocupou postos centrais da máquina municipal: chefiou o Departamento de Compras, foi secretário e acumulou, em diferentes momentos, a Procuradoria-Geral do Município e a Secretaria de Finanças — mantido no cargo de procurador-geral também na gestão do sucessor e aliado de Paranhos, o prefeito Renato Silva.

Ou seja: são mais de quinze anos de convivência política e administrativa entre Zorek e o grupo de Leonaldo Paranhos. E foi exatamente sob a nova gestão de Zorek na Transitar que a esposa e o primo do ex-prefeito passaram a figurar na estrutura de julgamento de recursos de trânsito.

A sequência de fatos alimenta a suspeita, levantada por críticos, de possível aparelhamento de órgãos ligados à autarquia — a prática de ocupar estruturas técnicas do Estado com indicações político-familiares. É uma suspeita, não uma conclusão: para afastá-la, bastaria à Transitar apresentar os critérios objetivos das nomeações. Até agora, não o fez.

As perguntas que seguem sem resposta

  1. Quais avaliações técnicas ou processos seletivos embasaram as indicações de Fabiola Anselmo Paranhos da Silva e Gerson Paranhos de Oliveira para a JARI?
  2. Qual “entidade ligada à área de trânsito” os dois representam formalmente, e qual a relação deles com essa entidade?
  3. Os nomeados receberão remuneração, jeton ou qualquer verba pela atuação na JARI, além dos vencimentos que já percebem na Celepar e na Cohapar?
  4. Há compatibilidade de horários e ausência de conflito de interesses entre as funções acumuladas?
  5. As nomeações têm relação com a chegada de Edson Zorek, aliado histórico de Leonaldo Paranhos, à presidência da Transitar?

O outro lado

O espaço segue aberto para manifestação da Transitar, de Edson Zorek, de Fabiola Anselmo Paranhos da Silva, de Gerson Paranhos de Oliveira e de Leonaldo Paranhos. A reportagem reitera que publicará, na íntegra, eventuais respostas e esclarecimentos que venham a ser encaminhados.

Nenhuma das pessoas citadas foi, até o momento, formalmente acusada de irregularidade por órgão de controle em razão dessas nomeações. As informações sobre cargos e remunerações constam de registros públicos do Portal da Transparência do Paraná e do site do Detran-PR.

Equipe

Editor Chefe: Evandro Nicolao

Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak

Clima
WhatsApp