Desinformação e Transfobia: A Violência Disfarçada de Opinião

No dia 16 de abril de 2025, o site Notícias Cascavel recebeu um texto de Duda Jankauskas sobre transfobia, sobre uma matéria exposta nos grupos de WhatsApp. A matéria aborda a urgência de combater a discriminação contra a comunidade trans, destacando a necessidade de conscientização e respeito.
Redação de Duda Jankauskas
A recente matéria por um site de noticias que é escrita por Aléssio Azulejista, trouxe o tema que critica a deputada federal Erika Hilton por denunciar um caso de violência institucional, após receber um visto dos EUA com o gênero masculino, é mais do que uma simples divergência de opinião: é um retrato do conservadorismo travestido de jornalismo e um exemplo explícito de transfobia disfarçada de “racionalidade científica”.
Identidade de gênero não é “ideologia” é realidade vivida
A reportagem afirma que “o que aconteceu não foi violência, tampouco desrespeito”, chamando o reconhecimento da identidade de gênero de Erika Hilton de “pauta ideológica”. Esse argumento é falacioso e profundamente perigoso. O reconhecimento da identidade de gênero é um direito humano, garantido em diversas legislações internacionais e reforçado por diretrizes da própria ONU, que a deputada acertadamente procurou.
Reduzir esse direito a uma “narrativa ideológica” é negar a existência de pessoas trans, uma prática comum do discurso transfóbico. Não se trata de “uma minoria barulhenta”, como diz o texto, mas de uma população historicamente marginalizada, violentada e silenciada, especialmente em países como o Brasil, que lidera os índices de assassinatos de pessoas trans no mundo.
Uso equivocado e tendencioso da Biologia
A frase “homem nasce homem, mulher nasce mulher” ignora completamente os avanços da ciência contemporânea. A Biologia moderna reconhece que sexo e gênero são conceitos distintos. O sexo biológico, por si só, não é binário: existem variações cromossômicas e hormonais que não se encaixam em definições simplistas. E mais: o gênero é uma construção social e subjetiva, validada não apenas por quem a vive, mas por todas as ciências humanas e pela medicina baseada em evidências.
Invocar uma Biologia simplificada e ultrapassada como se fosse verdade absoluta serve apenas para mascarar preconceitos sob o verniz da “ciência”. Isso não é educação científica, é violência simbólica.
A falsa dicotomia entre “as pautas identitárias” e os “problemas reais”
Outro ponto falacioso da reportagem é a ideia de que lutar pelos direitos das pessoas trans é um desvio de atenção frente aos “problemas reais” do país, como desemprego, saúde e educação. Essa retórica ignora que pessoas trans estão justamente entre os grupos mais vulnerabilizados por esses problemas.
Erika Hilton é uma das parlamentares que mais atuam em políticas públicas de impacto: combate à fome, direito à moradia, acesso à saúde e à educação para populações marginalizadas. Portanto, sugerir que ela está “desperdiçando tempo” ao lutar contra a transfobia é desonesto e revela o desprezo de quem escreveu pelo papel de parlamentares que ousam existir fora da norma cisgênero e heteronormativa.
Violência institucional é real e cotidiana
Erika Hilton teve sua identidade negada por um Estado estrangeiro, com base em documentos que o próprio Estado brasileiro permite alterar. Isso sim é violência institucional, quando a estrutura do sistema nega, apaga ou invalida uma identidade reconhecida social e juridicamente.
O caso que ela levou à ONU não é um “teatro ideológico”. É uma denúncia legítima de como até mesmo mecanismos burocráticos são usados como ferramentas de opressão. Não há nada de exagerado em denunciar esse tipo de violência, o que há é coragem política e compromisso com a dignidade humana.
A transfobia do autor da reportagem
A matéria é escrita com um tom acusatório, irônico e desrespeitoso. Ela não apenas distorce fatos, mas reforça estigmas e tenta deslegitimar a existência e o trabalho de uma mulher trans, negra, periférica, eleita democraticamente. Quando o autor se refere a Erika e sua denúncia como “militância identitária” e fala em “minoria barulhenta”, ele revela seu incômodo com o simples fato de que pessoas como Erika estejam ganhando visibilidade e poder.
Esse incômodo, infelizmente, é comum em setores conservadores que preferem um país onde apenas um modelo de ser humano, branco, cis, hétero e de classe média para cima, tenha direito à dignidade e ao espaço público.
Ou seja a reportagem contra Erika Hilton não é neutra, não é científica e não é jornalismo. É transfobia. É um ataque disfarçado de opinião. E como toda forma de violência, precisa ser denunciada, confrontada e vencida com coragem, informação e empatia.
Porque a verdadeira inversão de valores não está em quem luta para ser reconhecida como é, mas em quem insiste em negar a humanidade do outro em nome de uma “moral” seletiva e hipócrita.
Equipe
Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
