Enquanto Cascavel trabalha, Câmara para: vereadores com salário de quase 10 mínimos entram em recesso de duas semanas

Parlamentares que recebem R$ 15,5 mil por mês, mais de cinco vezes a remuneração média do trabalhador cascavelense, suspendem sessões, comissões e tramitação de projetos até 31 de julho, como prevê a Lei Orgânica do Município
Cascavel (PR), Segunda feira, 6h30 da manhã. Nos pontos de ônibus da Avenida Brasil e dos bairros mais distantes do centro, trabalhadores se acotovelam em coletivos lotados rumo aos frigoríficos, ao comércio, às linhas de produção e aos hospitais da cidade. Para eles, julho é um mês como outro qualquer: 44 horas semanais de trabalho para sustentar a família. A poucos quilômetros dali, no entanto, o plenário da Câmara Municipal permanece de portas fechadas. Os 21 vereadores de Cascavel estão em recesso legislativo desde o dia 18 e só retomam os trabalhos em 3 de agosto.
O recesso de meio de ano está previsto na Lei Orgânica do Município e ocorre anualmente entre 18 e 31 de julho. Durante o período, ficam suspensas as sessões ordinárias, as reuniões das comissões permanentes e a tramitação de projetos, requerimentos e demais proposições. Segundo a Câmara, o atendimento administrativo segue normalmente e os gabinetes dos vereadores permanecem abertos à população.
A pausa, embora legal, reacende um debate recorrente: o contraste entre a rotina dos parlamentares e a realidade da maioria dos cascavelenses, que não têm direito a recesso remunerado no meio do ano e cuja renda fica muito distante do subsídio pago com dinheiro público.
Salário de vereador: R$ 15,5 mil por mês
Cada um dos 21 vereadores de Cascavel recebe subsídio bruto de R$ 15.582,88 mensais, valor fixado para a legislatura 2025 a 2028. O presidente da Casa recebe mais: R$ 17.967,95. Os valores foram definidos em projeto de resolução aprovado ao fim da legislatura anterior e, por decisão recente do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE PR), permanecerão congelados até o fim do mandato. Qualquer reajuste só poderá valer para a próxima legislatura.
Em novembro de 2024, durante a discussão do projeto que fixou os subsídios, chegou a ser defendida na Câmara a elevação da remuneração para R$ 21.118,18, o mesmo valor pago aos secretários municipais, o que representaria um aumento de mais de R$ 5,5 mil por vereador. A proposta não prosperou.
E o trabalhador de Cascavel, quanto ganha?
Os números oficiais ajudam a dimensionar a distância entre o plenário e o ponto de ônibus:
- O salário mínimo nacional em 2026 é de R$ 1.621,00 (Decreto 12.797/2025). O subsídio de um vereador de Cascavel equivale, portanto, a cerca de 9,6 salários mínimos.
- A remuneração média do trabalhador formal em Cascavel foi de R$ 2.865,27 em 2024, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS). Ou seja: um vereador recebe, sozinho, o equivalente a mais de cinco trabalhadores formais da cidade.
- Mesmo na comparação com a média nacional, a diferença é expressiva. O rendimento médio do trabalhador brasileiro atingiu R$ 3.722 no primeiro trimestre de 2026, recorde histórico segundo a Pnad Contínua do IBGE, ainda assim, pouco mais de um quinto do que ganha um vereador cascavelense.
- Segundo o IBGE, com base no Censo 2022, cerca de 35% dos brasileiros ocupados ganham até um salário mínimo. Em Cascavel, as ocupações que mais empregam ilustram essa realidade: um operador de caixa na cidade ganha em média entre R$ 1.213 e R$ 2.054, e um vigilante, entre R$ 2.016 e R$ 3.473, conforme dados do Novo Caged compilados pelo portal Salario.com.br. Entre as vagas mais ofertadas pela Agência do Trabalhador da região estão auxiliar de linha de produção, abatedor e carregador de armazém, funções que seguem a todo vapor em julho, recesso ou não.

O contraste em números
Somados, os subsídios dos 21 vereadores custam aos cofres públicos mais de R$ 327 mil por mês, sem contar o presidente, verbas de gabinete, assessores e a estrutura da Casa. Durante as duas semanas de recesso, esse custo não é suspenso: os salários seguem sendo pagos integralmente.
O outro lado
Procurada, a Câmara Municipal sustenta que o recesso está amparado na Lei Orgânica do Município e integra o calendário oficial do Legislativo, espelhando prática comum a câmaras municipais, assembleias legislativas e ao próprio Congresso Nacional, que também param em julho. A Casa reforça que apenas as atividades legislativas são suspensas: gabinetes continuam abertos, o atendimento à população é mantido e os serviços administrativos funcionam normalmente.
Defensores do modelo argumentam ainda que o mandato de vereador não se resume às sessões plenárias, incluindo atendimento a moradores, visitas a bairros e articulação de demandas junto ao Executivo, atividades que, em tese, não cessam no recesso.
Críticos, por outro lado, apontam que a suspensão da tramitação de projetos por duas semanas atrasa pautas de interesse direto da população, como saúde, transporte e infraestrutura, e que o benefício escancara o abismo entre a rotina de quem legisla e a de quem sustenta a máquina pública com impostos.
Retomada em agosto
Os trabalhos em plenário serão retomados na primeira segunda feira de agosto, dia 3, conforme o calendário oficial do Legislativo. Até lá, os ônibus seguem lotados, as linhas de produção seguem girando, e o plenário, vazio.
Fontes: Câmara Municipal de Cascavel; Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE PR); Decreto Federal 12.797/2025; RAIS/Ministério do Trabalho e Emprego; Novo Caged; Pnad Contínua/IBGE; Salario.com.br.
Equipe
Editor Chefe: Evandro Nicolao
Departamento Jurídico: Dr Moacir Vozniak
